Divinópolis,
que é polo confeccionista, já tá com a moda de inverno. BH, que é uma
indecisão, nunca me permite saber se chove ou faz sol; só que meio dia é a hora
que, com chuva ou sol, faz muito calor. Preciso me organizar na cidade que moro
agora, marcar meus médicos lá, comprar roupa lá, cortar cabelo lá, reparar os
detalhes do comportamento das pessoas lá.
Fui
subindo a 1 de Junho, pensando no aniversário da cidade que dá nome a rua, olhando
as vitrines com as roupas de frio que tem um lugar reservado no meu coração,
querendo que fosse necessário usar aquelas roupas quentes, o que no momento
parecia algo absurdo, impensável... Encontrei a Tia Glorinha ali, quase
chegando na catedral, dei o braço a ela e seguimos até o prédio.
Entrei
e tomei café de vó feito por tia e saboreei as histórias da vida que não
presenciei; que ficara. A foto do Padre Libério na folhinha de 2015 fez eu
perceber que é, já estamos em 2015, e render uma história que sem freios chegam
na Vó Carmélia, que é minha bisavó, e no vovô que é meu avô.
“Seu
vô, naquela paciência, arriava a égua e ia lá em Ermida buscar umas balas pros
meninos. Dona Carmélia, naquela bondade, acendia o fogão de lenha e nós ficava
sentados no rabo do fogão.”
Sei
que minha bisavó, nessa ocasião, gostava de contar histórias de mula sem cabeça
e xingava os meninos que não acreditassem. Queria ter escutando uma dessas
histórias. Eu teria gostado, minha mãe diz.
Do
vovô eu lembro, tomando café e fumando o cigarro de palha. Ou tentando fazer
com que a égua me obedecesse. Nunca conseguimos.
Foi
na missa do Crisma, tia?
Nada.
É demorada ne? Os meninos falaram pra eu deixar e ir na missa a noite. Lava-pés.
As
palavras simples, na boca de uma mulher que se define pelo amar, ficam tão
doces e puras. Mulher elegante que não sai de casa sem um batom, mas que
prefere mesmo é a caridade. Dona, tia, vó Glorinha... Poderia ficar muito ainda
conversando sobre as histórias que contribuíram pra formar a história que tenho
hoje. Apreciando a delicadeza dos contos, dos causos, das percepções, das
saudades, das mudanças. Sem preguiça,
sem cansaço, sem sono. Mesmo tendo sido acordada cedo, no dia, com o barulho
escandaloso dos meus sobrinhos brincando na sala.
Abri
os olhos com a tradicional revolta de ser acordada cedo num dia de folga, mas
lembrei o quanto estava com saudades daqueles pequenos. Fiquei um tempo deitada
ainda escutando como a conversa se daria, analisando o comportamento que seguia
sem interferências da ‘gente grande’, a forma como interagiam. Aí, a sonolência
foi dando lugar ao amor que transbordava e finalmente levantei pra receber, de
bom dia, abraços fortes e empolgados.
Minha
tia as vezes fala que acha que Deus já tá quase chamando ela. Os meus sobrinhos
brigam por que querem os mesmos brinquedos. Eu estou no meio. Tentando adquirir
paciência e aprender com as duas extremidades da vida. Escutar, brincar, rezar.
Levar a sinceridade das crianças e poder contar os causos saudosos, quando for
mais velha. Eu estou no meio. Me
permitindo alguns minutinhos da semana pra passar esmalte vermelho, sem saber
qual roupa usar no próximo fim-de-semana. Conversando com pessoas que falam que
eu posso me tornar doutora, um dia – pessoas em quem eu acredito. Sofrendo calada com o ciúme que sinto dos meus amigos e com a saudade dos que eu não posso ter
comigo. Lembrando daquele moço pra quem eu dei um doce, generosamente. Moço que
já me causou arrepios e hoje não sei onde está.
Nunca
tinha parado pra escutar rádio em BH e fiz isso dentro do carro. Tocou música
boa, mas não tinha espaço pra abrir os braços. Mudava de estação e o tempo ia
passando. Agora eu já sei quando estou chegando na Raul Soares e daqui a pouco
tenho vinte anos. Quem diria que na universidade preferiria, inicialmente, a
teoria da linguística? Mas largo literatura não. O tempo vai passando. Já foi
Semana Santa de novo e, é moço, foi sexta-feira da Paixão, da paixão,
e você sabe bem o que isso sempre significará. Significará que na lua está o
coelho e que o coelho trará o chocolate do nosso domingo.
É sexta-feira da Paixão e não tem comunhão.