Engraçado como a vida é injusta. O ônibus é passageiro, mas o passageiro não é ônibus.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Bicicleta

Antes escrevia na esperança de que vissem, e hoje demoro a escrever com medo de você achar que estou escrevendo para você (constatar isso, na verdade) e entender errado. Demoro a escrever porque me sinto culpada de largar a leitura dos textos teóricos ou dos livros que eu comprei ou que queria ter comprado. Demoro porque sábado tem festa e segunda tem prova. Tenho demorado mesmo. A responder cartas, a ver filmes, a ligar pra minha mãe, a procurar um médico ou trocar o brinco do segundo furo.
Para ilustrar: tinha tanto tempo que eu não andava de bicicleta! E esse passeio na orla só serviu para eu ter certeza de que eu devo confiar mais nas minhas intuições (devia ter pegado matéria a noite!) e procurar realmente o que me faz bem. O vento no rosto é um amor desde criança e isso que eu devo procurar: os meus amores. Assim como me manter com as pessoas que me deixam à vontade. Para falar de coisas simples: depilação, menstruação, unhas, sexo e sexualidade ou defender numa conversa saudável que qualquer mulher pode usar o que quiser (inclusive turbantes), se quiser, quando quiser. Sei que a minha maior deficiência, hoje, é minha preguiça, mas muitas das vezes a preguiça é falta de paciência mesmo. Porque não quero precisar conversar, a todo momento, com medo do que vou dizer, tendo que me impor ou tentando te convencer de que posso ter boas ideias (ou ideias parecidas com a suas). Essa sou eu, com uma formação e uma personalidade própria. Contraditória, confusa, vulnerável e, ao mesmo tempo, determinada, empenhada, decidida; intolerante a julgamentos generalizados e prévios.
Odeio o adjetivo ‘inocente’. Principalmente quando usam sem saber da minha história, do meu percurso, das minhas conquistas. Mas odeio mais ter que ficar provando que não sou. Porque talvez seja mesmo, uai: toda vez que abro mão de pegar um ônibus pra acompanhar uma pessoa até em casa; toda vez que acordo cedo pra fazer café e oferecer pros outros; ou quando convido quem eu gosto pra vir pra minha casa, esperando muito que venha sem ela ter dado certeza (quarto andar!). Ou talvez isso seja outra coisa, só não cabe a um outro dizer.
Minha preguiça existe e ela é maior no sentido de ‘falta de paciência’. Mas paciência no sentido de ‘saber esperar’ eu estou conseguindo adquirir. Sonhei com os meus sobrinhos e fiquei lembrando deles durante o dia, pensando no tanto que eu podia tentar aprender e ensinar, pacientemente e gradativamente. Mas eles estão longe. Tenho paciência ao, devagar, cortar frutas pra fazer salada. E acredito, inocentemente, no amor não só verdadeiro, mas também generoso, mesmo achando que é necessário também sorte. Tento relaxar toda vez que o vento bagunça meu cabelo e eu pacientemente arrumo de novo, mesmo sem saber como arrumar. E assim, eu vou com a bicicleta, com o vento, mas me falta o ar.