Antes
escrevia na esperança de que vissem, e hoje demoro a escrever com medo de você
achar que estou escrevendo para você (constatar isso, na verdade) e entender
errado. Demoro a escrever porque me sinto culpada de largar a leitura dos
textos teóricos ou dos livros que eu comprei ou que queria ter comprado. Demoro
porque sábado tem festa e segunda tem prova. Tenho demorado mesmo. A responder
cartas, a ver filmes, a ligar pra minha mãe, a procurar um médico ou trocar o
brinco do segundo furo.
Para
ilustrar: tinha tanto tempo que eu não andava de bicicleta! E esse passeio na
orla só serviu para eu ter certeza de que eu devo confiar mais nas minhas
intuições (devia ter pegado matéria a noite!) e procurar realmente o que me faz
bem. O vento no rosto é um amor desde criança e isso que eu devo procurar: os
meus amores. Assim como me manter com as pessoas que me deixam à vontade. Para
falar de coisas simples: depilação, menstruação, unhas, sexo e sexualidade ou
defender numa conversa saudável que qualquer mulher pode usar o que quiser
(inclusive turbantes), se quiser, quando quiser. Sei que a minha maior
deficiência, hoje, é minha preguiça, mas muitas das vezes a preguiça é falta de
paciência mesmo. Porque não quero precisar conversar, a todo momento, com medo
do que vou dizer, tendo que me impor ou tentando te convencer de que posso ter
boas ideias (ou ideias parecidas com a suas). Essa sou eu, com uma formação e
uma personalidade própria. Contraditória, confusa, vulnerável e, ao mesmo
tempo, determinada, empenhada, decidida; intolerante a julgamentos
generalizados e prévios.
Odeio o
adjetivo ‘inocente’. Principalmente quando usam sem saber da minha história, do
meu percurso, das minhas conquistas. Mas odeio mais ter que ficar provando que
não sou. Porque talvez seja mesmo, uai: toda vez que abro mão de pegar um
ônibus pra acompanhar uma pessoa até em casa; toda vez que acordo cedo pra
fazer café e oferecer pros outros; ou quando convido quem eu gosto pra vir pra
minha casa, esperando muito que venha sem ela ter dado certeza (quarto andar!).
Ou talvez isso seja outra coisa, só não cabe a um outro dizer.
Minha
preguiça existe e ela é maior no sentido de ‘falta de paciência’. Mas paciência
no sentido de ‘saber esperar’ eu estou conseguindo adquirir. Sonhei com os meus
sobrinhos e fiquei lembrando deles durante o dia, pensando no tanto que eu
podia tentar aprender e ensinar, pacientemente e gradativamente. Mas eles estão
longe. Tenho paciência ao, devagar, cortar frutas pra fazer salada. E acredito,
inocentemente, no amor não só verdadeiro, mas também generoso, mesmo achando que é necessário também sorte. Tento relaxar
toda vez que o vento bagunça meu cabelo e eu pacientemente arrumo de novo,
mesmo sem saber como arrumar. E assim, eu vou com a bicicleta, com o vento, mas
me falta o ar.