Engraçado como a vida é injusta. O ônibus é passageiro, mas o passageiro não é ônibus.

domingo, 23 de outubro de 2016

Finalmente Porto Alegre

Um dia eu teria mesmo de confessar que nunca usei muitos critérios para escolher essa cidade como destino e os motivos que me trouxeram para cá são muito mais subjetivos do que se pode pensar. Apesar de não seguir o padrão do que qualquer um julgaria como “aceitável”, os motivos são bem “convincentes”, eu diria. Mas raramente exponho. Os ventos desse destino que me esperava começaram a soprar muito antes deu saber que esse deslocamento podia ser real. “Ir o mais longe que eu puder” era a meta quando, em cabeça sonhadora e criativa, o corguinho no fundo do quintal da minha mãe virava o cenário das “grandes navegações” que eu fazia. A goiabeira que tinha à beira dele era o meu barco. E o meu binóculo de brinquedo antecipava a notícia de alguma possível tempestade que vinha ao longe ou algum outro imprevisto. O meu sonho, na época, era sair mundo a fora, desbravar, se aventurar e se distanciar ao máximo daquele sítio do interior do interior de Minas Gerais que, por mais que fosse aconchegante, era pequeno. A trilha sonora dessa trama, criava os efeitos especiais que, hoje, pra onde vim não de barco, mas voando, são os palcos reais das minhas “navegações”.
A consciência de que estou aqui é importante para constatar “as lembranças do futuro que a gente imaginava”. Ela vem às vezes quando chego na esquina da Osvaldo para pegar o D. E ela veio, também, do alto do vigésimo quinto andar de um prédio ali na Salgado. Ali é o Guaíba; aqui o Mercado Público; aquela é a Borges. É, guria, tu tá aqui. Tu veio. Já tenho achado chimarrão uma ótima ideia e já até coloco “ti” depois das preposições. Mas bah, rotina aqui não tem. A maior rotina que eu consigo ter aqui é a de reinventar o lixo na rua de madrugada. Nesse bairro que pelo menos lixo bom tem. O fim aqui é bom. E o caminhão de gás que, invadindo, toca, diariamente, o interfone e é decepcionado.
Assim como a aquisição da linguagem, se localizar deve ser alguma coisa adquirida na infância. Como na minha infância eu tive muito mais sonhos que práticas, quando me rodam nas ruas movimentadas, eu já não sei mais onde estou. Divinópolis é pequena e nunca saí muito do centro. Era fácil, mesmo se saísse, voltar para um ponto de referência. O sentimento de se sentir perdida se agravou a cada nova cidade que eu conheci. Aqui em Porto Alegre não é diferente. Percebo, a cada dia, como a falta de noção espacial é presente, até mesmo em relação a noção de corpo que sim, existe e ocupa um espaço, mas não se sente à vontade em ocupar. Um corpo que está perdido muito além do que aquele site de mapas poderia me mostrar, e se encontrar é o desafio que nem o minuano, ainda, conseguiu resolver. Mesmo assim, procuro sempre novas rotas até a Redenção. Ir sempre pela mesma é ter a falsa sensação de pertencimento. Ainda não aceito.
Por que antes eu aceitava muito. Sempre tive muito a influência dos grupos nos quais eu estava inserida, ainda que a vontade da maioria nunca coincidia com a minha. O pertencimento era ilusório. Todos precisam ter voz e eu, ao invés de acalentada, era silenciada. 
Não ter voz, nesse caso, não é não saber falar. Eu sei. 
Não ter voz não implica em ter vontades erradas. Eu vim pra confirmarem que, é, tomo as decisões menos prováveis, as que o “grupo” não tomaria, mas que eu acho pessoas que botam fé nelas comigo. Olhar de fora faz com que, ao invés de pensar que errei, eu procure fazer com aquele rumo também faça sentido. E chegue até um destino viável. Tenho cultivado a preferência por não reclamar, apesar de drama ser comigo mesmo. Ignorar a aula que eu não tive e aproveitar a passagem gasta até o Vale pra jogar uma sinuca com alguém da Toca. Ir até Guaíba para conhecer o além Rio. Conhecer uns roles diferentes da Cidade Baixa e ir pra Zona Sul. 
Continuo não fazendo o mesmo percurso até em casa. Tenho várias esquinas para atravessar a rua saindo da Faced, e a Garibaldi talvez não seja a melhor para isso. Nem por isso eu a excluo. Porque os nomes das ruas tem um padrão bairrista que me impressiona, e talvez sirvam para lembrar, cada vez mais, onde eu vim parar. 
Sempre procurei fazer comparações entre BH e Poa. São tantas que eu parei. De grande, além das bikes no Vertente, a diferença é a falta do comodismo que eu tinha lá. O errado é que estava tudo certo demais. Diz a lenda que eu aceitei o convite da lua e troquei minhas certezas por alguns sonhos mágicos. De certo aqui, tenho algumas saudades e o “zelo” de quem o bom dia é muito mais que uma expressão e sim um desejo.
Para desconstruir alguns estereótipos, moro com vegetarianos e não se ouve muito tchê por aqui não. “Rataria” é mais comum. 
Isso que eu escrevo tomou um ar mais conclusivo do que introdutório, porém dois dos seis meses ou dos vinte anos que vou ficar aqui é só o começo do que a guria do pão de queijo ainda vai experimentar. A lua não para de me chamar. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Afogamento

Eu vou querer olhar teus olhos antes de mergulhar em você.
Estarei me contorcendo de prazer, rindo.
Vou querer um beijo como quero agora
O corpo ficará quente ofegante pela falta de ar.
O suspiro é a volta à superfície.
O coração que havia parado, volta a bater forte
Então só restará nosso corpo molhado.
Vamos deitar lado a lado
para sentir.
Sem pressa
Sem preocupação
Sem vontade de nadar.
Teremos um silêncio confortável
Sem vontade de fugir.