Deus me aparece nas horas mais inusitadas. Nos
momentos simples ou decisivos Ele estava lá em forma de beija flor. No milharal
da Fale, na hora da pausa do dia para ficar leve, Ele era o sol refletindo na
janela do CAD, procurando uma forma de nos iluminar. Ele também já foi aquele
bando de passarinhos voando em formação num fim de tarde quando, depois de uma
imersão e de comer um chocolate, ajoelhamos na cama para olhar da janela do meu
quarto.
Indo de BH para Divinópolis vejo o pôr do sol
bem alaranjado cobrindo os amontoados de terras. Ela do meu lado. Ali, Ele veio
para lembrar que todas as definições de amor não são melhores do que aquela que
você mesmo cria. Horizonte ondulado. O do Sul é plano. São tipos diferentes de
horizontes, formas diferentes de caminhar. Minas é isso mesmo... as montanhas
gerais, a marca desse estado intermediário, central, o que deveria ser, e foi, o
que chama para ficar quem quer migrar, mas que só ia de passagem pra Bahia. Se
eu não morasse em minas, iria para Minas. E ainda vou. A viagem em junho é
diferente de janeiro. Em junho eu vejo as pipas. Em janeiro eu quero o mar que Minas
não tem. Então, na falta é que se cria o objetivo. Quem
já tem, não procura. Foi por não ter espaço que eu quis me expandir. Foi por
morar no interior que quis cidade grande. Foi só por ter Minas que eu fui para o
Sul. Foi só por já ter o Sul que eu voltei. Ter o Sul é valorizar uma casa
de janela grande do lado da redenção que só seria melhor se batesse sol. É
saber que falar “você” pode ser mais respeitoso do que os jovens estão
esperando. É estar entre Floripa com sua oferta de oceano e a vontade de ir para
outro país.
Ser do interior de Minas é saber que cachorro
latindo acuado é sinal de algo estranho, gente passando, outro cachorro ou lua
cheia. E os foguetes nessa época só pode ser seguido de um viva São João bem
respeitoso. As estrelas cadentes fazem espetáculo para quem resiste às noites
longas e frias. E as outras parecem catapora no céu sem interferência. É filtro
de barro e fogão à lenha. E a lembrança do meu pai de cabeça branca abençoando
quem passasse na estrada. Cada amadurecimento e cada desconstrução de lá para
cá contribuem para perceber que o passado ainda me impulsiona e me define já
que eu sou resultado direto do que eu vivi. Eu sou a minha história. Morar em
Porto alegre me fez esquecer que o deslocamento é difícil, mas me fez lembrar que
o molde é maleável. Ainda não me limito
Morar em BH tem sido... entender que as
transições não são estáticas. O foda é lidar com o que não permaneceu. E mesmo
assim já amo. Porque Minas é um abraço. Porto Alegre foi um sopro. Passar em
frente ao cemitério da Paz e sentir a paz de poder continuar fazendo história,
ou de fazer a história ser diferente. Tem sido... ouvir rádio para saber como
está o trânsito sem precisar saber, só para ver que tem uma cidade lá fora. 12
graus na capital mineira (28 na capital gaúcha). Radio é não ter que escolher.
E eu que sou pura indecisão vou fingindo que tenho esse hábito só pela sensação
de ouvir uma música e saber que não estou sozinha no universo.
Ser mineiro é admirar coisa simples e grandioso
feito café sendo preparado no fogo como no de vó mas que, no nosso caso, vem
pra aquecer o coração desses universitários tentando ter uma casa. O café se solvendo
é aquela obra de arte espetacular. Pó para amargar, água para misturar e o
cheiro para unir gente que do outro bloco sente e, naquele fim de tarde
preguiçoso, vem agregar prosa boa e traz o chá. Afeto nesse frio é o cobertor.
É um “eu trouxe comida para nós”. Nosso amor só dá certo porque gostamos de
agradar e temos um jeito parecido de fazer isso. É saber que aquilo é história
sendo feita.
Na verdade, isso tudo podia ser deus. É poesia.