Engraçado como a vida é injusta. O ônibus é passageiro, mas o passageiro não é ônibus.

domingo, 29 de março de 2015

Poesia Palhaça

Ando estudando sobre poesia esse semestre. Muita teoria, claro. Uma dessas teorias diz que a poesia em si está por aí, e você, enquanto receptor, a percebe e define o quanto aquilo é poético e como brindar com alguma arte, de alguma forma. É só uma das teorias, uma das. Acho que foi isso que aconteceu nesses últimos dias. Eu sentia a poesia nas coisas, mas acredito que não conseguiria transformar a poesia das coisas em poesia das palavras. Não soube, ou não quis, transformar em poesia escrita a poesia que sinto todo dia quando acordo e olho o céu pela janela pensando se pode chover, pra decidir se deixo a janela aberta enquanto estou fora – e a poesia de, mesmo sem concluir nada, eu já ter aprendido a sempre deixar a janela aberta pra arejar meu quarto. A essência ficaria, e não seria poético.
Estava no ônibus num desses dias de absorção poética e entrou um vendedor de jujuba fantasiado de palhaço. Que palhaçada pensei e abaixei pra rir da besteira recorrente. O palhaço nas suas palhaçadas, pensei também, é pra chamar atenção das crianças. Marketing. A mãe comprou o que o filho queria e a mãe teve prazer de satisfazer a vontade do filho. Nunca fui, nunca quis ser mãe, até então, até sentir a necessidade dessa felicidade generosa. Desci do ônibus ali perto da pracinha e vim observando as mães com os filhos num fim de tarde, brincando com eles e com o cachorro que buscava obediente a bolinha que mandavam buscar. Aí então, a poesia estava em ser mãe. Liguei pra minha e ela me deu uma das maiores felicidades dos últimos dias, simplesmente me contando que estava feliz. (A poesia estava em ser filha). Enquanto me deliciava com as criancinhas e suas mães, me deparei com uma criança fantasiada de palhaço. Nada de palhaçada. E sim uma das coisas mais fofas que podia ter. Deve ser dia do palhaço, pensei. Era o dia do Circo, descobri, e tudo do dia fez muito sentido. Assim como ter tido o dia da poesia alguns dias antes.
Pela leveza que vou encontrando nesses dias, eu “cansei de carregar milhões de medos das pessoas que me cercam e me pesam de agonia”; foi o que me libertou para querer conhecer mais pessoas. E querer viver a poesia mínima. Ir numa festa a noite, beijar uma boca macia, ter mão na cintura, levar alguém em casa, entrar pra ver um filme, comer pipoca, brigadeiro, pizza caseira, dançar forró, ir no vizinho ‘bater papo’ ...
Sigo tendo os meus dias de não me importar muito com as regras, com os deveres, com as responsabilidades, em agradar, em conquistar. Escrevendo uma frase com inversão de integrantes sem colocar vírgulas e divulgando textos como esse.
Dos dias mais poéticos o melhor foi o dia que estava escrito repenso e eu li dispenso.

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