Engraçado como a vida é injusta. O ônibus é passageiro, mas o passageiro não é ônibus.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Cássia amarela, pulou a janela





Hospital foi feito para enlouquecer. Se vier bom, adoece. Se vier com uma doença, arruma mais três. Senão, sai com problemas mentais. Pela falta de espaço, pela falta de wifi, pelo tanto de outras pessoas doentes que se vê, pela a liberdade roubada, pela cabeça vazia de compromissos e estudos... Ser impedida de fazer tarefas me incomoda muito mais do que uma semana de provas, e essa cabeça vazia de assuntos importantes abre espaços para pensamentos bobos. Em BH, também moro no 402. Tenho experiências com a altura do quarto andar. Sei que é desnecessário querer pular, e esse pensamento logo passa. Dona Mara foi quem usou “defenestrar” comigo pela primeira vez, eu gostei do vocabulário e infelizmente é uma palavra recorrente, ainda que em metáforas. Ela também é do 402 e ela também me entende quando eu falo que gosto de estudar.
Além dos pensamentos bobos, existem também os sentimentos inconvenientes. Mesmo sabendo que não deveria senti-los, o lado humano não me deixa ficar feliz ao ver todos aproveitando os shows carnavalescos por aí enquanto eu tento separar o quiabo da carne, na comida (de hospital). Sem diagnósticos, sem previsão de voltar à vida normal, sem a companhia de algumas pessoas importantes. Sinto aquele tipo de ciúme invejoso, nada generoso!, ao ver que conseguem ser muito felizes sem mim (mal de lua em Leão). E não deixo de pensar que poderia ter sido apenas uma internação rápida, assim como as que acontecem nessas datas.
Enquanto eu espero, eu observo. A rotina não difere nesse outro hospital. O pouco espaço, o elevador sem espelho, a televisão no alto. É tudo muito melancólico. De feliz tem o bom dia, com sorriso, das enfermeiras que vem tirar sangue de manhã, me chamam de alguma personagem amarela e falam que prefeririam um Smurf. Eu aceito. Também preferiria não estar aqui.
Não há muito o que fazer aqui. A preocupação máxima é qual pijama usar depois do banho. A comida chega, o chão é limpo, minha mãe traz roupa limpa e, em afronta, continua amanhecendo e anoitecendo lá fora. A Ana veio e trouxe baralho. Alguns dos vícios têm de continuar. Outros trouxeram comida ou prosa boa. O prazeres também têm.
O significado de “paciente” é os outros falarem sobre você na terceira pessoa na sua frente. A Dona Neusa, aqui do leito do lado, sabe bem disso. Ser mulher com manias próprias de uma época tão diferente de agora restringe a possibilidade de ter uma velhice tranquila. Os outros é que agora tomam decisões por ela. Decisões que ela secretamente me conta que não concorda, mas que tem de aceitar. Adoecer na idade dela é ter os papeis invertidas com os filhos. Adoecer, pra mim, é o medo de ser rara.
Quando eu era criança, tinha medo de chuva. Por isso eu sabia exatamente quando ia chover. Aprendi a entender as nuvens escuras que se formavam no horizonte em junção com a direção do vento. Ficava observando elas, rezando para Santa Bárbara pra que ela não viesse tão forte como parecia. Hoje chove enquanto eu aguardo o diagnóstico médico. E não conheço tão bem esse meu medo a ponto de saber a qual santo rogar. Mas sei que a ansiedade é o vento que não está favorável e não tem me ajudado na recuperação. A cada dia, do meu jeito, eu peço a Deus mais calma e paciência, mas, como boa ariana, eu quero isso o mais rápido possível.