Hospital foi feito para
enlouquecer. Se vier bom, adoece. Se vier com uma doença, arruma mais três.
Senão, sai com problemas mentais. Pela falta de espaço, pela falta de wifi,
pelo tanto de outras pessoas doentes que se vê, pela a liberdade roubada, pela
cabeça vazia de compromissos e estudos... Ser impedida de fazer tarefas me
incomoda muito mais do que uma semana de provas, e essa cabeça vazia de
assuntos importantes abre espaços para pensamentos bobos. Em BH, também moro no
402. Tenho experiências com a altura do quarto andar. Sei que é desnecessário
querer pular, e esse pensamento logo passa. Dona Mara foi quem usou
“defenestrar” comigo pela primeira vez, eu gostei do vocabulário e infelizmente
é uma palavra recorrente, ainda que em metáforas. Ela também é do 402 e ela
também me entende quando eu falo que gosto de estudar.
Além dos pensamentos bobos,
existem também os sentimentos inconvenientes. Mesmo sabendo que não deveria
senti-los, o lado humano não me deixa ficar feliz ao ver todos aproveitando os
shows carnavalescos por aí enquanto eu tento separar o quiabo da carne, na
comida (de hospital). Sem diagnósticos, sem previsão de voltar à vida normal,
sem a companhia de algumas pessoas importantes. Sinto aquele tipo de ciúme
invejoso, nada generoso!, ao ver que conseguem ser muito felizes sem mim (mal
de lua em Leão). E não deixo de pensar que poderia ter sido apenas uma
internação rápida, assim como as que acontecem nessas datas.
Enquanto eu espero, eu
observo. A rotina não difere nesse outro hospital. O pouco espaço, o elevador
sem espelho, a televisão no alto. É tudo muito melancólico. De feliz tem o bom
dia, com sorriso, das enfermeiras que vem tirar sangue de manhã, me chamam de
alguma personagem amarela e falam que prefeririam um Smurf. Eu aceito. Também
preferiria não estar aqui.
Não há muito o que fazer
aqui. A preocupação máxima é qual pijama usar depois do banho. A comida chega,
o chão é limpo, minha mãe traz roupa limpa e, em afronta, continua amanhecendo
e anoitecendo lá fora. A Ana veio e trouxe baralho. Alguns dos vícios têm de
continuar. Outros trouxeram comida ou prosa boa. O prazeres também têm.
O significado de “paciente”
é os outros falarem sobre você na terceira pessoa na sua frente. A Dona Neusa,
aqui do leito do lado, sabe bem disso. Ser mulher com manias próprias de uma
época tão diferente de agora restringe a possibilidade de ter uma velhice
tranquila. Os outros é que agora tomam decisões por ela. Decisões que ela
secretamente me conta que não concorda, mas que tem de aceitar. Adoecer na
idade dela é ter os papeis invertidas com os filhos. Adoecer, pra mim, é o medo
de ser rara.
Quando eu era criança,
tinha medo de chuva. Por isso eu sabia exatamente quando ia chover. Aprendi a
entender as nuvens escuras que se formavam no horizonte em junção com a direção
do vento. Ficava observando elas, rezando para Santa Bárbara pra que ela não
viesse tão forte como parecia. Hoje chove enquanto eu aguardo o diagnóstico
médico. E não conheço tão bem esse meu medo a ponto de saber a qual santo
rogar. Mas sei que a ansiedade é o vento que não está favorável e não tem me
ajudado na recuperação. A cada dia, do meu jeito, eu peço a Deus mais calma e
paciência, mas, como boa ariana, eu quero isso o mais rápido possível.
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