O soro
esteve na mão direita. Na mão boa, a mão que pede a benção, a mão que faz o
sinal da cruz. O soro esteve atrapalhando a pulseira de beija-flor, me
lembrando o porquê de sair de BH e deixar a flor para trás. Se pudesse teria
trazido ela comigo. Regar à distância é difícil. Mas espero que ela esteja
crescendo e me receba ainda mais bonita quando eu sair desse hospital.
Falar
que está internada assusta. Mas por enquanto é só pra tomar soro mesmo.
Engraçado que nessas horas todos os amigos (que loucos eu já sei que são) se
tornam também meio médicos, todos querem deixar a sua contribuição, uma
simpatia, uma oração, um caso particular que é parecido e pode ajudar. Eu acho
bonitinho a preocupação e a vontade de ajudar. Eu, ao invés de ser acalmada,
tento acalmar quem procura saber. É como se Deus mostrasse que eu preciso de
mais paciência. Menos ansiedade e menos pressa. Paciente é isso mesmo: que
espera e recebe. O que mais tenho feito nesse quarto é esperar, coisa que não
fiz muito durante o ano acabado. Era sempre tudo muito corrido, próprio de uma
capital. A única exceção deve ter sido cerveja que eu aprendi a tomar e age
mais devagar. De resto, era pressa pra acabar semestre e ver o conceito final,
pra ser professora de francês, pra chegar em casa e tomar banho... Pra ter uma
flor só minha.
Eu
aviso que eu estou aqui por que quero visitas. As pessoas me chamam no privado
e me perguntam o que eu tenho. E sempre comentam que estar internado deve ser
muito ruim. Pra mim é estranho, eu que nem soro na veia nunca tinha tomado. A
última internação foi quando recém-nascida. A história do meu nascimento é
sempre repetida quando querem me lembrar que a minha mordomia foi diferente: a
mordomia existiu. Nasci numa terça feira Santa e deve que por isso, pra
contrariar, não sou tão santa. Cheguei em casa de taxi na sexta feira. O tempo
internada foi porque tive tiriça. Fiquei encantada de saber que a tiriça é o
resultado da facilitação linguística para icterícia e, hoje, esse retorno ao
hospital, é, então, uma volta às origens. Foram por motivos diferentes. Ao
nascer, era o corpo gritando o nascimento, reagindo ao peso de ser mulher.
Hoje, a pele amarelada é o grito de um corpo intoxicado, sufocado,
provavelmente, pelas palavras não escritas. Elas pesam e incomodam. E não vão
parar de coçar enquanto não forem colocadas para fora. Deixar de escrever, pra
mim, é realmente pedir pra adoecer. Não há nada aqui que não peça pra ser
escrito, o que só aumenta o desconforto.
O
desvario é anterior a intoxicação e, deixando ele a parte, o diagnóstico real
ainda não foi dado. A Dra. Carol disse que eu sou complicada. Na verdade, o
sistema de saúde que é, então tudo demora. Ela é tranquila e passa uma
confiança boa. As providências estão, com uma calma que eu não quero alcançar,
sendo tomadas.
O
soro está na mão esquerda agora.
Nenhum comentário:
Postar um comentário