O rapaz da carona
veio ouvindo Criolo. Criolo me encanta quando não me assusta com o Céu¹.
Engraçado que, na hora, estava pensando no meu pai e pensando onde ele pode
estar agora. Espero que não seja no céu, mas sei que é em algum lugar que
permite que ele ainda esteja comigo. Assim como Deus. Tantas outras situações
se relacionaram a isso por associações. Foram as sincronicidades da viagem. O
filme que eu vi no dia anterior e o beija flor que eu pretendo tatuar... Martha
Medeiros que tem a capacidade de relacionar as sincronicidades assim, naquelas
belezas que são suas crônicas. Eu não, eu só exponho, quando possível.
A não-exposição se dá
por dois motivos. Pela falta ou por egoísmo. E egoísmo é por não querer
compartilhar o que sente. Foi assim com Adélia e com a companhia daquele dia
correndo comigo para pegar ônibus, com o chá, com a sinuca, com a estrada, com
a vontade de trancar o semestre e com as conversas que renderam em mensagens de
textos. O resto foi a falta. Qualquer poeta precisa é de inspiração (qualquer
artista - me corrigiram).
Cada manhã parece um
vazio. As cenas que se repetem é a ausência. É a pedra que Adélia fala no seu
poema². Eu sou um poço querendo transbordar, eu sou a prévia, a que não é, só a
que quer ser.
A vontade se confunde
entre descer um morro correndo ou parar no meio e ter a fadiga de voltar pro
topo. Com um empurrão e eu me liberto morro abaixo, experimentando tudo
possível: a adrenalina, o vento no rosto, o medo, o tombo, os arranhões, as
feridas profundas e o chegar no seu início. Ou o fim, dependendo da
perspectiva.
Não se escreve porque
explicar é desgastante e, apesar de gostar do processo é angustiante esse desenvolvimento.
Depois de pronto acabou, aquilo não te pertence mais, mas enquanto está no
processo, ainda é seu, depois que você explica não é mais. Assim como a minha crença
em santos e a não-crença em vida eterna. Isso é bonito justamente por não ser explicável.
Estudando Camões nas
aulas de Literatura Portuguesa e sem saber como paramos nisso houve a conclusão
de que a experiência é uma explicação. De certa forma a situação é explicada
depois da dúvida, da ansiedade e, finalmente, depois dela experimentada. Cada escrita é
uma experiência e uma explicação. Cada amor também. Falar de amor todas as
sextas feiras de manhã depois de noites de quintas no Cabral não tem sido
fácil. Mesmo o amor de Camões que defende o desejo como complemento do amor e
não algo que afasta-o de uma pureza. O carnal ser errado é realmente uma
besteira. Corpo e sentimentos devem andar juntos. A efetividade do amor é dada quando
se sente o corpo. E eu, agora, sinto falta de um corpo.
¹ Não existe amor em
SP - https://www.youtube.com/watch?v=f35HluEYpDs
“Os bares estão
cheios de almas tão vazias
A ganancia vibra, a
vaidade excita
Devolva minha vida e
morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro
céu.”
(Criolo)
² Paixão -
Adélia Prado
De vez em quando Deus
me tira a poesia.
Olho pedra, vejo
pedra mesmo.
O mundo, cheio de
departamentos,
não é a bola bonita
caminhando
solta no espaço.
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