Engraçado como a vida é injusta. O ônibus é passageiro, mas o passageiro não é ônibus.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Do céu ao corpo

O rapaz da carona veio ouvindo Criolo. Criolo me encanta quando não me assusta com o Céu¹. Engraçado que, na hora, estava pensando no meu pai e pensando onde ele pode estar agora. Espero que não seja no céu, mas sei que é em algum lugar que permite que ele ainda esteja comigo. Assim como Deus. Tantas outras situações se relacionaram a isso por associações. Foram as sincronicidades da viagem. O filme que eu vi no dia anterior e o beija flor que eu pretendo tatuar... Martha Medeiros que tem a capacidade de relacionar as sincronicidades assim, naquelas belezas que são suas crônicas. Eu não, eu só exponho, quando possível.
A não-exposição se dá por dois motivos. Pela falta ou por egoísmo. E egoísmo é por não querer compartilhar o que sente. Foi assim com Adélia e com a companhia daquele dia correndo comigo para pegar ônibus, com o chá, com a sinuca, com a estrada, com a vontade de trancar o semestre e com as conversas que renderam em mensagens de textos. O resto foi a falta. Qualquer poeta precisa é de inspiração (qualquer artista - me corrigiram).
Cada manhã parece um vazio. As cenas que se repetem é a ausência. É a pedra que Adélia fala no seu poema². Eu sou um poço querendo transbordar, eu sou a prévia, a que não é, só a que quer ser.
A vontade se confunde entre descer um morro correndo ou parar no meio e ter a fadiga de voltar pro topo. Com um empurrão e eu me liberto morro abaixo, experimentando tudo possível: a adrenalina, o vento no rosto, o medo, o tombo, os arranhões, as feridas profundas e o chegar no seu início. Ou o fim, dependendo da perspectiva.
Não se escreve porque explicar é desgastante e, apesar de gostar do processo é angustiante esse desenvolvimento. Depois de pronto acabou, aquilo não te pertence mais, mas enquanto está no processo, ainda é seu, depois que você explica não é mais. Assim como a minha crença em santos e a não-crença em vida eterna. Isso é bonito justamente por não ser explicável.
Estudando Camões nas aulas de Literatura Portuguesa e sem saber como paramos nisso houve a conclusão de que a experiência é uma explicação. De certa forma a situação é explicada depois da dúvida, da ansiedade e, finalmente, depois dela experimentada. Cada escrita é uma experiência e uma explicação. Cada amor também. Falar de amor todas as sextas feiras de manhã depois de noites de quintas no Cabral não tem sido fácil. Mesmo o amor de Camões que defende o desejo como complemento do amor e não algo que afasta-o de uma pureza. O carnal ser errado é realmente uma besteira. Corpo e sentimentos devem andar juntos. A efetividade do amor é dada quando se sente o corpo. E eu, agora, sinto falta de um corpo.


¹ Não existe amor em SP - https://www.youtube.com/watch?v=f35HluEYpDs
“Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganancia vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu.”
(Criolo)

² Paixão - Adélia Prado
De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos,
não é a bola bonita caminhando
solta no espaço.