A pracinha esteve em silencio.
Desde que eu ainda estava na moradia, eu só
tive essa primeira frase. Sabia que devia escrevê-la, mas não sabia o que a
completava. Nem se algo a completava... Não, pois a pracinha estar em silêncio
é muito significativo e vocês sabem disso. Desde que eu soube que devia
escrever, eu adiei as minhas lágrimas por que ressignificar "família"
não é pra qualquer grupo.
Éramos nós, um bando de interioranos buscando
medidas alternativas de sobreviver à capital, às opressões, à falta de grana, à
saudade dos que ficaram no interior. Dentre todos, nós: um grupo de pessoas tão
diferentes, ou melhor, complementares, que vivia juntos e decidiu também
sobreviver juntos.
Na vida corrida de universitário, os nossos horários
vagos que coincidiam eram a maior recompensa daquele dia cansativo e triste na
faculdade. E a tranquilidade era o aconchego do abraço gostoso dos membros da Facul,
era o baile de favela no quarto do Rodrigo, era as pernas cruzadas do West, era
os olhos chapados do Isac, era o “Boto fé” do Lucas, era o cafuné da Day, era
os nossos carinhos e nossos sorrisos.
Minha janela que dava pra pracinha do
condomínio universitário e pra várias outras janelas, eu podia observar algumas
movimentações e ouvia quem chegava. Pela risada ou por algum bordão eu
identificava se era algum membro da Facul que estava lá em baixo e eu descia
para ver quem estava salvando. Aos poucos todos iam chegando, sentando à mesa
em roda e ficávamos ali até alguém verbalizar o desejo geral: “ces animam uma janta?”.
Cada um oferecia o que tinha em casa,
juntávamos, e nós, que até então, estávamos pensando em comer alguma besteira
ou nem comer, tínhamos um banquete na nossa frente. O som que acompanhava
nossas refeições não era o mesmo sempre. Variávamos bem, eu diria. Um dia era
Bethania; outro dia íamos de Criolo a Rihanna passando pelos nossos funk; outro
dia o Violão da Bruna. Outros dias o silêncio. Ou o único barulho que se tinha
era o dos talheres nos pratos. Essa era a maior certeza de pertencimento
possível. Estar em silêncio nesse momento de intimidade que é comer. Estar
absorta em seus pensamentos, mas em boa companhia. Era o momento de maior
amizade.
Depois de algum tempo tínhamos um “o que
dizer?”
A maioria das fotos eu não estou. Perdi a maioria
das histórias que aconteciam depois das duas da madrugada. Mas a Facul é essa
família que mesmo do meu quarto eu participava. “Ta transando, amiga?”. Os
meus áudios de funk para o grupo eram bem recebidos ou pelo menos bem lembrados.
O meu choro bem acalentado. Minha nerdisse, respeitada. Minha “arianisse”
compartilhada. Minha calma, apreciada.
A pracinha ficou vazia.
Porque a Jacob saiu pra cursar o curso que
pelo nome parece feito pra ela. O Alê, menino de Tombos, foi pro Sul. A
Celinha, agora, é uma mestranda. A Ritinha foi passear no Maletta. A Bruna
precisa de um tempo. Alguns parece que formaram – nem acredito que isso seja
verdade: Ana, West?
E vocês sabem o que isso significa. Significa
que não íamos ouvir mais o violão da Bruna tocando Perota, não ouviríamos a
Jacob nos mandando acordar, o Bruno ou a Jéssica fiscalizando a lei do Gnomo e
do Duende. “Epa, pra esquerda!”. Não teríamos uma rodinha de pessoas na mesa da
pracinha dividindo um paiero, uma cerveja, as histórias do dia, as risadas ou o
beck, é claro.
Eles foram seguir os sonhos. Eu vim segui meu
sonho. E só consegui escrever isso porque a minha professora de produção de
texto pediu um texto sobre rotina e essa nossa rotina era a que eu queria. Não
consegui escrever isso nos modos acadêmicos. Não abrangeria nossa totalidade. Teve
de ser no meu modo mesmo. Mas escrevi.
A pracinha está vazia, mas eu estou cheia de
amor por vocês e por tudo o que vocês representam!