Engraçado como a vida é injusta. O ônibus é passageiro, mas o passageiro não é ônibus.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Família Facul

A pracinha esteve em silencio.
Desde que eu ainda estava na moradia, eu só tive essa primeira frase. Sabia que devia escrevê-la, mas não sabia o que a completava. Nem se algo a completava... Não, pois a pracinha estar em silêncio é muito significativo e vocês sabem disso. Desde que eu soube que devia escrever, eu adiei as minhas lágrimas por que ressignificar "família" não é pra qualquer grupo.
Éramos nós, um bando de interioranos buscando medidas alternativas de sobreviver à capital, às opressões, à falta de grana, à saudade dos que ficaram no interior. Dentre todos, nós: um grupo de pessoas tão diferentes, ou melhor, complementares, que vivia juntos e decidiu também sobreviver juntos.
Na vida corrida de universitário, os nossos horários vagos que coincidiam eram a maior recompensa daquele dia cansativo e triste na faculdade. E a tranquilidade era o aconchego do abraço gostoso dos membros da Facul, era o baile de favela no quarto do Rodrigo, era as pernas cruzadas do West, era os olhos chapados do Isac, era o “Boto fé” do Lucas, era o cafuné da Day, era os nossos carinhos e nossos sorrisos.
Minha janela que dava pra pracinha do condomínio universitário e pra várias outras janelas, eu podia observar algumas movimentações e ouvia quem chegava. Pela risada ou por algum bordão eu identificava se era algum membro da Facul que estava lá em baixo e eu descia para ver quem estava salvando. Aos poucos todos iam chegando, sentando à mesa em roda e ficávamos ali até alguém verbalizar o desejo geral: “ces animam uma janta?”.
Cada um oferecia o que tinha em casa, juntávamos, e nós, que até então, estávamos pensando em comer alguma besteira ou nem comer, tínhamos um banquete na nossa frente. O som que acompanhava nossas refeições não era o mesmo sempre. Variávamos bem, eu diria. Um dia era Bethania; outro dia íamos de Criolo a Rihanna passando pelos nossos funk; outro dia o Violão da Bruna. Outros dias o silêncio. Ou o único barulho que se tinha era o dos talheres nos pratos. Essa era a maior certeza de pertencimento possível. Estar em silêncio nesse momento de intimidade que é comer. Estar absorta em seus pensamentos, mas em boa companhia. Era o momento de maior amizade.
Depois de algum tempo tínhamos um “o que dizer?”
A maioria das fotos eu não estou. Perdi a maioria das histórias que aconteciam depois das duas da madrugada. Mas a Facul é essa família que mesmo do meu quarto eu participava. “Ta transando, amiga?”. Os meus áudios de funk para o grupo eram bem recebidos ou pelo menos bem lembrados. O meu choro bem acalentado. Minha nerdisse, respeitada. Minha “arianisse” compartilhada. Minha calma, apreciada.
A pracinha ficou vazia.
Porque a Jacob saiu pra cursar o curso que pelo nome parece feito pra ela. O Alê, menino de Tombos, foi pro Sul. A Celinha, agora, é uma mestranda. A Ritinha foi passear no Maletta. A Bruna precisa de um tempo. Alguns parece que formaram – nem acredito que isso seja verdade: Ana, West?
E vocês sabem o que isso significa. Significa que não íamos ouvir mais o violão da Bruna tocando Perota, não ouviríamos a Jacob nos mandando acordar, o Bruno ou a Jéssica fiscalizando a lei do Gnomo e do Duende. “Epa, pra esquerda!”. Não teríamos uma rodinha de pessoas na mesa da pracinha dividindo um paiero, uma cerveja, as histórias do dia, as risadas ou o beck, é claro.
Eles foram seguir os sonhos. Eu vim segui meu sonho. E só consegui escrever isso porque a minha professora de produção de texto pediu um texto sobre rotina e essa nossa rotina era a que eu queria. Não consegui escrever isso nos modos acadêmicos. Não abrangeria nossa totalidade. Teve de ser no meu modo mesmo. Mas escrevi.
A pracinha está vazia, mas eu estou cheia de amor por vocês e por tudo o que vocês representam!



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