O meu mundo está bem bagunçado. O meu. Esse
que é sem confiança, que por natureza já não sabe o que fazer. Esse mundo se vê
bagunçado bem aqui na barriga, e as metáforas que já foram usadas não abrangem
essa nova totalidade. É um mundo de mulher. Pequenas situações me influenciam
fortemente e não deveria ser tão difícil se sentir à vontade. Pertencimento
inclui poder descascar laranja sem pedir licença. Não pertencer ao que se está
inserido é algum erro que vai se acumulando. A busca não vai me fazer fugir de
mim? Esse “será?” é o que me faz ficar parada. Eu que sempre fui condicionada a
pecar pela falta e ocupar lugar nenhum, não sei agir.
A
vida universitária de quem mora fora segue uma rotina que exige estar sempre em
movimento para a solidão não dominar. Fazemos muito para o quarto nos ver
pouco. E te falar que universitário é uma raça estranha, viu. E quem pertence a ela
é esse povo que elege o mais copo sujo pra ser cenário das melhores histórias, quem
desafia as regras de sobrevivência, quem sai exibindo por ai um chupão roxo no
pescoço.
Sobre sempre ter muito por fazer, é um desafio chegar em casa e ter paciência
para só conseguir temperar a água do chuveiro para não queimar, nem doer;
varrer a casa ouvindo um arrocha e ter uma canseira que não seja a mental.
O
contato com as pessoas é a esperança. Esses cheiros que impregnam, essas
pessoas que sabem abraçar, essas que passam e levam o equilíbrio do nosso
corpo. Volta, não só pra te ver de novo, mas pra me fazer parar de tremer. A
vida sem espelho gera essa falta de consciência sobre si e qualquer música que
ouço não traz a representatividade. Traz lembranças. A minha infância não foi
com Sandy Junior. O que me faz lembrar dela gera meus sonhos
com cobras e são esses medos que não tem deixado eu continuar. Constatei que
sempre fui acostumada a ficar sozinha no meu quarto, tanto lá e aqui. Era
estranho ninguém perceber que não era normal, e não foi eu perceber isso que me
deixou assim morna e ingênua.
A incapacidade de me manifestar bem não é
atual. É histórica. É própria de quem achava que não merecia nenhum destaque. De
quem moldava a fala para agradar. Ir contra é ter opinião. Não ter opinião era
pertencer. Nem assim pertencia. Eu observava e tinha consciência de que aquela
não era a minha história. Eu devia era estar colocada em um cenário errado.
Deve ter havido um erro de convocação de elenco. E vivia na periferia desse
palco. Ser protagonista é questão de ponto de vista. Do meu eu não devia ser.
Talvez o meu mundo ainda não tenha aceitado que eu sou. Talvez o meu mundo seja
o meu quarto.
Trilha sugerida: Poema – Ney Matogrosso
Nenhum comentário:
Postar um comentário