Pelas palavras escritas registradas eu vou
trançando o mapa das realizações dos meus planos e vendo quais projeções vão se
concretizando ou me driblando. Amadurecer é saber lidar com os planos que não
se concretizam. E dói. Mas quanto mais
planos concretizados mais sabedoria. Você tem que ter consciência de si e ver o
que você significa e o que significa tudo que você fez, ela me falou. Eu
escutei e trouxe lá do fundo aquela alegriazinha pontiaguda de desatino que
também dói quando o resultado precisa de esforço. É, minha amiga, eu cresci e
arrematei alguns pontos. E desatei nós. Obrigada por me mostrar a mulher que
venho me tornando. Quando os tapas na cara não são tão visíveis, a
emoção é menor. Mas eu não, não aceito. Eu sou mais intensa.
Reiniciar o movimento com novos planos para não
ficar parada. Maturidade é perceber que a vida não termina depois que você
realiza um grande sonho. Maturidade é acreditar que consegue realizar outros.
A família passa em meus olhos pela janela do
vizinho. Lá tem tv e sofá na sala. Eu, do meu quarto com uma cama e, ainda, sem
prateleira, faço novos planos. Aproveito que agora quem incentiva está perto, e
imagino a casa que chamarei de lar. Nada extraordinário, mas vai ter tomada
perto da cama.
Ter paciência tem sido
cada vez mais raro. Só com pausas forçadas é que eu consigo criar ânimo. Só
quando estou na sala de espera do hospital público é que o medo de receber
notícia ruim se mescla à necessidade de desviar a atenção do barulho do joguinho
do celular da criança ali do lado. Aí escrevo. Faço planos de ter paciência. Maturidade de
acompanhar uma pessoa no hospital eu achava que não tinha. Lembrei da minha mãe
reclamando do valor da passagem pra ir me visitar, daquela vez no hospital, mas
levando fruta, doce, roupa lavada e lembranças dos parentes. Cada um reage de
um jeito, e o amor que eu quero é o que me faz se deslocar e se propõe a me
tirar de uma rotina interna. Isso é amadurecer. Tenho amor.
Saber que preciso escrever me deixa
mais desesperada, enquanto que a gastrite, também, ataca de novo por causa das
palavras reprimidas. Engulo-as, e elas, que são formuladas para o fora, se
tornam indigestas quando não saem.
É parada também que os primeiros sintomas de
saudade começam a aparecer. É o que me sobrou da etapa milimetricamente sonhada.
Saudade de morar na Av Cauduro só porque ela é uma avenida de um quarteirão.
Saudade de xingar o entregador de gás que batia o interfone de manhã. Saudade
do Nimbus. Saudade do horizonte plano que me fazia caminhar - Saudade que também é o nome do bairro que
ando frequentando boba de feliz aqui em BH –, saudade de Porto Alegre; vivia inserida
numa rotina, num grupo, numa família. Com um avião, o cenário vai sendo deixado
para trás. Sem a Redenção; sem o pôr do sol no Guaíba; sem o Vale. Hoje eu sei
que esperar o Silêncio abrir era mais do que desespero de jovem baladeiro, boladeiro, cachaceiro. Era o que seria uma das minhas maiores
saudade. A outra é a de ver o mundo com o os olhos críticos dos textos da Magali.
A faculdade nunca foi tão melhor que a vida real. Cada pé para fora de casa era
a expectativa não decepcionada de histórias para viver. Todo dia, tudo estava
prestes a acontecer. A maioria aconteceu.
O que eu senti em Porto Alegre foi o aperitivo
de quem quer comer o mundo. Sensações reais que me deixavam tonta e, as vezes,
até de cama. Não há substituição, mas há lembranças e haverá retorno. Sensação
de dançar forró é a realização física o amor que eu sinto por Poa e pesa na
barriga. Que cai e gastricamente eu sinto a reação disso no meu corpo. Me fez
escrever. É viver. Eu vivi.
Há
três meses chorava com medo.
Hoje
choro de alívio.
Chorava
por ter vivido,
agora
choro
por
continuar vivendo.
O
medo era de não mandar se fuder
E
não aceitar o que realmente gosta,
sem
uma receita que argumenta
o
jeito melhor de
moldar
sua
história .
Assumir a colher de pau da sua vida e
escolher os melhores ingredientes
é como a lei do gnomo,
no
seu próprio bolo,
quem bolou é o dono
Nenhum comentário:
Postar um comentário