Engraçado como a vida é injusta. O ônibus é passageiro, mas o passageiro não é ônibus.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Era um cheiro de lembranças.


E eu imaginei, é claro.
Clichê? Claro também.
Eu estava em cima da história, procurando talvez qual a melhor forma de fazer a minha; e aceitar que não sirvo pra contar nenhuma. Um impasse foi a mistura. O passado insistia em invadir o meu presente e o presente que eu vivo disputava lugar com o presente que eu queria viver. Eu sentia que a fumacinha da casa de barro, que eu vi bem lá na frente, era a minha vida. Efêmera e difusa, mas resultado de uma coisa boa. Coisa boa que vó tava fazendo la no fogão de lenha, o filtro de barro pra encher, perto das panelas de ferro; e bolo de milho.
As moças nas janelas ou das sacadas se apaixonando pelos viajantes que passavam a cavalo. Imaginei. Barulhinho de ferradura na estrada de pedra. Subindo até a igreja. Cheiro de café. E o assovio do trem.
A paixão não depende da época. As moças de vestido deram lugar à moças de atitudes. À moças que beijam outras moças. E moças continuam se apaixonando.
Praquela pedra que escuta história de amor, eu falo: nada de amor. Só paixonada dimais da conta. Estradas reais que me fizeram apaixonar; pessoas que me deixaram apaixonadas e pessoas que me reapaixonaram. Melhor do que se apaixonar é se reapaixonar, já disse. É a certeza de que aquelas pessoas apaixonantes estão diferentes, estão conhecendo o mundo, mas ainda assim despertam em mim aquele sentimento bom. Amizade tranquilinha, bem mineirinha mesmo. Igual pão de queijo e uai. Bão demais da conta!
Ô, minha amiga, nada é definitivo, viu? Agora há carros atrapalhando a foto mas ela não deixou de ser bonita. As carroças só como forma turística. As igrejas que eram a tentativa de mostrar a grandiosidade de Deus agora são isso também. Podem te dar medo, mas podem te dar conforto. Servem de refúgio. Você está perto de montanhas. A profundidade talvez esteja aonde você ainda não procurou ou você não procurou direito. Mas ela existe. E dá pra encontrar.
Outro impasse foi a dúvida. O interior e a cidade grande. A paixão e o amor. Novamente... Os desafios instigam. Ao mesmo tempo que nada é tão difícil. Eu quero o mundo mas também quero uma viagem pelo interior. Quero mais noites de São João e dias de Tiradentes; quero uma blusa de Minas Gerais.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Troca

-A melhor forma de morrer é em cima de um palco.
É que dá medo de passar despercebido por essa vida que Deus nos deu. Jogar o próprio nome na internet e ver que um nadinha de um cara que tem o mesmo nome que você aparece em resposta por que nem morrer ele soube. Caiu de um viaduto o desgraçado. Ali na Pampulha, lugar que eu passo todo dia e eu mesmo poderia ter passado e me jogado. Mas é que é isso, até pra morrer a gente tem que saber.

-Eu não tenho medo da morte. Tenho medo de sofrer antes de morrer.
As minhas loucuras são tão milimetricamente planejadas que uma hora isso vai dar merda. A ousadia segue um limite de flexão. Ela flexiona mas não deriva. Não é independente, não é maior do que eu. É imposta, calculada. Essa liberdade é ilusão. Ainda estou presa. Presa por esses medos mesquinhos que não me permitem pegar uma trilha sem rumo por não saber se só a morte me espera. Quem me dera morrer, simplesmente.

-Tem tanta coisa que eu quero viver.
Porque a vida é uma só pra mim, que não acredito no que esse povo fala. Esse povo de microfone na mão exaltando possíveis obrigações que eu não tenho responsabilidade pra cumprir. Minha fé é em Deus e ele não vai me permitir outras vidas. É muito melhor ser raro. Então se é uma só é muito triste não poder experimentar, é triste ser só uma. Já perdi as contas de qual sou agora. A vida é essa peculiaridade que nos permite não ser definitivo.

-Seria bom se a gente tivesse a garantia de morrer em paz
Queria tanto que fosse verdade. Queria tanto poder acreditar que existe outras vidas, uma força maior, queria muito que fosse verdade pra eu ter em que acreditar. Eu precisaria de comprovações pra isso. Assim prefiro não ser bem aventurada. Como acreditar não culmina em ser bom, prefiro continuar com a minha perfeição questionável.

-Eu quero uma plenitude.
Há tantas experiências rasas assim como algumas pessoas. Algumas excelências você só consegue alcançar em sintonia com a outra. Alguns orgasmos. Estar em busca de uma plenitude requer paciência. Eu sou louca com a capacidade de esvaziar a mente. Quem consegue, alcança uma das plenitude. Há formas alucinógenas de se sentir pleno e apto. Experimentar só é válido com um propósito.

-Eu já busco a perfeição.
Acredito que sim a gente consegue ser perfeito. Se isso é exigência eu não sei. Se eu vou conseguir eu não sei. Mas a busca me faz não ficar parado e se algo tangenciar essa ideia de perfeição eu já terei ido muito além do que muita gente. E isso de saber mais me agrada. É bom ser alguma coisa. O movimento é o que me mostra que estou viva.

-O amor
Eu não me amo todos os dias e não é possível amar ao outro todos os dias. O que não é admissível é amar só uma pessoa de cada vez. Não sei como funciona o amor depois da morte, ou se funciona de alguma forma. Então é perda de tempo se limitar. Atrás da porta de algum banheiro está escrito que a gente ama à alma da pessoa e aí ninguém sabe se a alma tem gênero. Talvez continuemos amando as almas depois da morte.

-Conhecer pessoas é o que me fascina. Ouvir opiniões que são abertas a discussões é tão tranquilizante que as opiniões absolutas eu dispenso. Não sei o que sou agora, mas sinto que estou no caminho certo pra me definir. Enquanto isso considero válidas todas as formas de amar. Nenhuma ideia me parece estranha.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Escuro

Primeira vez que acordo pensando que já era o dia seguinte
Mas ainda é a mesma noite
Escuro.
Acordei assustada.
Primeira vez que o pesadelo me acorda.
E cadê você pra dizer que fora apenas um sonho?
Que nada daquilo aconteceu e principalmente não aconteceria?
Era dia; era algo virtual.
Você estava vivendo e não precisava de mim.
A sua felicidade me deu medo por que eu não estava nela.
E quando comecei a cair por que o chão talvez me aguentasse, eu acordei.
Queria ter ligado pra você pra falar que sem você eu estaria perdida,
Mas na verdade a gente nunca se encontrou.


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Superfície impermeável


A lua é como a mulher.
Cruel.
A atenção prendida involuntariamente...
Vontade de ser mais forte e não olhar.
Mas assim como a mulher,
ela sabe que é bonita e não teme em se mostrar.
Vagabunda!
Você não me merece por me iludir.
Eu não te mereço por que você brilha.
Assim como a lua, a mulher não sabe do que causa em mim.
Sei que ela é bonita e ainda assim
 todos os dias que a vejo é o mesmo deslumbramento.
Vou clamar à lua assim como à musa.
Oh, lua, deseje me conhecer!
Não reine absoluta sem se preocupar comigo que sou só uma...
Sou só!
Veja além da minha pele exposta.
Você que apenas ilumina superficialmente.
Desfrute! Abuse, até!
Infiltre nesta que quer te pertencer.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Fome


Oh menina,
você está querendo comer o mundo, é?
Ai que medo isso me dá.
Tão fragilzinha
Não é medo de tentar...
Não...
Ah, vai e me conta qual o sabor.
O medo é de você se assustar com o ardido
Ah! se me ouvisses, falaria pra comer. Comer ao máximo, mas devagar.
Como não, digo que estou aqui pra ser seu remédio.
Sou tua.

 


domingo, 28 de setembro de 2014

Explicação


O silêncio me perturba. Ficar parada por muito tempo me desestabiliza. Quando ouço a musica que gosto, me sobressalto. Não sei o que da vontade de fazer, mas ficar parada me incomoda. Tenho vontade de me reinventar. Sempre achei que para isso precisaria me desligar do meu passado e começar uma coisa diferente, mais interessante. O que me deixaram de contar foi que os sonhos têm prazo de validade. E ai, meu Deus, respondi errado à professora. “Pardon madame, je m'appelle Sonhadora”. Os planos foram minuciosamente calculados. Ainda bem que não sou engenheira por que devo ter me esquecido de considerar alguma teoria e algo saiu errado, então só assim aprendi. Entendi que o passado e o presente não podem ser desligados por que eles estão em mim. E não tem como eu viver sem eles.
Hoje eu encontrei Deus. Ele estava no horizonte. Os horizontes são feitos de passos. E eu gosto de caminhar. Principalmente quando as pernas já sabem o caminho. Prefiro não depender de ninguém que assim ninguém depende de mim. É melhor, melhor que não tenham que lidar com a minha inconstância. Não sou confiável, aviso. Não por que minto, mas por que mudo de opinião na mesma facilidade que escrevo. Sou uma vela e o fogo não me permite ser a mesma.
Chega a noite os pensamentos condensados meio que se derretem e você coloca a culpa na mente vazia. Mas ocupar a mente é uma forma de fuga também. E vai deixando, vai acumulando e como em um relógio, em algum momento, o ponteiro maior passa pelo doze novamente. É aí que você tem que parar, por que a vida é igual um ônibus: são necessárias algumas paradas. Então quando está tudo muito cheio é melhor descer. Deixar que sigam viagem enquanto você vai esperar o próximo. Por que cada um tem seu tempo e seu destino. Mas não se pode parar em qualquer lugar. Existem os pontos pré estabelecidos. E aqui é um deles. O ponto de ônibus. O nosso ponto de ônibus, específico pra quem simplesmente não consegue seguir essa viagem sem algumas escalas.