Engraçado como a vida é injusta. O ônibus é passageiro, mas o passageiro não é ônibus.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Agora transbordo


Quando a gente transborda demais, depois de um tempo também fica difícil de se juntar. Se recolher, se reorganizar. Não é só quando a gente se quebra de uma queda alta que fica tudo espalhado. Achar o fio que nos conduz não estando em si também requer empenho. E é bom sair de si! Esquecer da hora falando de possibilidades. Beber numa segunda, conhecer o poder do raio, ser pega sem saber reagir a um sorriso.
Parar de ser exigente com a raridade me fez aproveitar. A felicidade está nos detalhes. A perfeição é questão de ponto de visão. Venho de sequência de dias com emoções diversas. E tenho sim sentido uma empolgação, uma calma confiante, me sinto participando, me sinto construindo, caminhando, colaborando. Vivendo. Aproveitando a juventude patética que nos é imposta. O amor tem sido próprio. Olha que momento raro: estou na melhor fase de mim. Continuo dispensando a vida eterna e focando nisso aqui. As recompensas não são presentes imediatos, mas são breves como os mortais.
Ficar indisposta também é desafio. Mesmo transbordar exige uma disposição de energia. Requer força e estrutura apta a segurar carga grande. Mas sabe, é que a falta de hábito a certas sensações requer prática. Comer o mundo as vezes pesa. E eu quero tudo de uma vez.
Tento recarregar essas energias em momentos diversos. Seja fazendo comida pra agradar, seja em troca com quem abraça longo, seja rindo. Seja olhando a lua que nasce entre os prédios belorizontinos numa noite que venta. Onde você está agora? Como você está agora? O que está acontecendo com você nesse momento? Quais sensações passam por esse corpo pra te mostrar que você está viva? Você está feliz? Seja sendo.
Daí que a gente vai tentando preencher paredes brancas com o colorido dos postits que lembram de dias, sensações. Registrar descarrega. E renova. Relembra e provoca um sorrisinho que anima pro dia longo.
Arrumo a cama, quando acordo, por capricho. Pela pura beleza de chegar em casa e ver alguma coisa tão arrumadinha em dias de confusões. Já me reconhecem por ser a menina que divide tudo em cores. Eu me reconheço como a exagerada que, de tanto chapar de amor, chora.
O problema é que eu gosto de ver as coisas prontas, então me desespero. O que ainda não aprendi é que nunca vai ser atemporal. Eu digo mesmo, digo pra não deixarem de criar expectativas porque ajuda a não aceitar menos do que merece. Da queda, o negócio é tentar pousar sem despencar. Mas sem medo de se multiplicar. Agora eu também estou espalhada. Sou várias.

sábado, 3 de março de 2018

Acúmulo

O problema é que para continuar nós precisamos de pausas. Esse era o intuito, esse foi o propósito. Ter o meu Ponto de Ônibus para pausar essa viagem às vezes. Fui deixando tudo acumular. Sem conseguir me concentrar em nada. E era tudo tanto!
Tenho vivido de lembranças. E de projeções. Vou vendo tudo amontoado, atropelado, instável. Sem saber se espero, insisto ou minto. Tenho optado é por sentir (“Só sente, só vai, só espera, só vive”). Só sentir sem se preocupar em registrar, seja em fotos, palavras ou pessoas. Nunca vai deixar de ser tanto. Saudade que eu tava era de sentir meu corpo inquieto, tremendo de vida, com os mais variados sentimentos transbordando e me encharcando. Adoeci de vazio. Os dias vão resumindo em jogar fumaça para dentro para ver se os pensamentos saem. Só sentir o cheiro bom de casa sendo ocupada com carinho.
As pausas são para retomar o fio que nos conduz. Vê se estamos fazendo sentido nisso que pode ser só mais um capricho ou descuido. Não ter consciência do que você é, faz você não ter consciência do que você pode ser. Aproveita, menina, que a lua ainda chama. Tudo clama! Poesia?
Sentir, eu vou sentindo. Pensar é que tenho evitado. Sobre isso tudo tenho adiado. Adiado a escrita porque as palavras machucam. A piscina porque a feminilidade é perversa. O meu quarto porque lá dentro tudo parece mais urgente. O fim para não ter que ter outro começo.
Sair, sem pensar, pra sentir o calor das ruas, as vidas, as sensações, pode ser parecido com Rir! Ler Clarice. Ler Adélia e relacionar com Cícero. Sentir. Saber argumentar. Será que naquela noite que chovia eles foram dormir com um pouquinho de mim ou ainda nem foram dormir como eu.  Foram escrever as ideias que não param que palpitar; foram pintar; meditar; ouvir um funk, sei lá, talvez nada.  Mas mentiras sinceras me interessam.
As histórias se repetem! os nossos ídolos ainda são os mesmos? Seguimos sendo os universitários perdidos que repetem a história e a força deixa a história mal contada. De repente isso de colecionar momentos é a pior das drogas.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Pra falar de Minas

Deus me aparece nas horas mais inusitadas. Nos momentos simples ou decisivos Ele estava lá em forma de beija flor. No milharal da Fale, na hora da pausa do dia para ficar leve, Ele era o sol refletindo na janela do CAD, procurando uma forma de nos iluminar. Ele também já foi aquele bando de passarinhos voando em formação num fim de tarde quando, depois de uma imersão e de comer um chocolate, ajoelhamos na cama para olhar da janela do meu quarto.
Indo de BH para Divinópolis vejo o pôr do sol bem alaranjado cobrindo os amontoados de terras. Ela do meu lado. Ali, Ele veio para lembrar que todas as definições de amor não são melhores do que aquela que você mesmo cria. Horizonte ondulado. O do Sul é plano. São tipos diferentes de horizontes, formas diferentes de caminhar. Minas é isso mesmo... as montanhas gerais, a marca desse estado intermediário, central, o que deveria ser, e foi, o que chama para ficar quem quer migrar, mas que só ia de passagem pra Bahia. Se eu não morasse em minas, iria para Minas. E ainda vou. A viagem em junho é diferente de janeiro. Em junho eu vejo as pipas. Em janeiro eu quero o mar que Minas não tem. Então, na falta é que se cria o objetivo. Quem já tem, não procura. Foi por não ter espaço que eu quis me expandir. Foi por morar no interior que quis cidade grande. Foi só por ter Minas que eu fui para o Sul. Foi só por já ter o Sul que eu voltei. Ter o Sul é valorizar uma casa de janela grande do lado da redenção que só seria melhor se batesse sol. É saber que falar “você” pode ser mais respeitoso do que os jovens estão esperando. É estar entre Floripa com sua oferta de oceano e a vontade de ir para outro país.
Ser do interior de Minas é saber que cachorro latindo acuado é sinal de algo estranho, gente passando, outro cachorro ou lua cheia. E os foguetes nessa época só pode ser seguido de um viva São João bem respeitoso. As estrelas cadentes fazem espetáculo para quem resiste às noites longas e frias. E as outras parecem catapora no céu sem interferência. É filtro de barro e fogão à lenha. E a lembrança do meu pai de cabeça branca abençoando quem passasse na estrada. Cada amadurecimento e cada desconstrução de lá para cá contribuem para perceber que o passado ainda me impulsiona e me define já que eu sou resultado direto do que eu vivi. Eu sou a minha história. Morar em Porto alegre me fez esquecer que o deslocamento é difícil, mas me fez lembrar que o molde é maleável. Ainda não me limito
Morar em BH tem sido... entender que as transições não são estáticas. O foda é lidar com o que não permaneceu. E mesmo assim já amo. Porque Minas é um abraço. Porto Alegre foi um sopro. Passar em frente ao cemitério da Paz e sentir a paz de poder continuar fazendo história, ou de fazer a história ser diferente. Tem sido... ouvir rádio para saber como está o trânsito sem precisar saber, só para ver que tem uma cidade lá fora. 12 graus na capital mineira (28 na capital gaúcha). Radio é não ter que escolher. E eu que sou pura indecisão vou fingindo que tenho esse hábito só pela sensação de ouvir uma música e saber que não estou sozinha no universo.
Ser mineiro é admirar coisa simples e grandioso feito café sendo preparado no fogo como no de vó mas que, no nosso caso, vem pra aquecer o coração desses universitários tentando ter uma casa. O café se solvendo é aquela obra de arte espetacular. Pó para amargar, água para misturar e o cheiro para unir gente que do outro bloco sente e, naquele fim de tarde preguiçoso, vem agregar prosa boa e traz o chá. Afeto nesse frio é o cobertor. É um “eu trouxe comida para nós”. Nosso amor só dá certo porque gostamos de agradar e temos um jeito parecido de fazer isso. É saber que aquilo é história sendo feita.
Na verdade, isso tudo podia ser deus. É poesia. 

domingo, 16 de abril de 2017

Dos planos à maturidade

Pelas palavras escritas registradas eu vou trançando o mapa das realizações dos meus planos e vendo quais projeções vão se concretizando ou me driblando. Amadurecer é saber lidar com os planos que não se concretizam. E dói.  Mas quanto mais planos concretizados mais sabedoria. Você tem que ter consciência de si e ver o que você significa e o que significa tudo que você fez, ela me falou. Eu escutei e trouxe lá do fundo aquela alegriazinha pontiaguda de desatino que também dói quando o resultado precisa de esforço. É, minha amiga, eu cresci e arrematei alguns pontos. E desatei nós. Obrigada por me mostrar a mulher que venho me tornando. Quando os tapas na cara não são tão visíveis, a emoção é menor. Mas eu não, não aceito. Eu sou mais intensa.
Reiniciar o movimento com novos planos para não ficar parada. Maturidade é perceber que a vida não termina depois que você realiza um grande sonho. Maturidade é acreditar que consegue realizar outros.
A família passa em meus olhos pela janela do vizinho. Lá tem tv e sofá na sala. Eu, do meu quarto com uma cama e, ainda, sem prateleira, faço novos planos. Aproveito que agora quem incentiva está perto, e imagino a casa que chamarei de lar. Nada extraordinário, mas vai ter tomada perto da cama.
Ter paciência tem sido cada vez mais raro. Só com pausas forçadas é que eu consigo criar ânimo. Só quando estou na sala de espera do hospital público é que o medo de receber notícia ruim se mescla à necessidade de desviar a atenção do barulho do joguinho do celular da criança ali do lado. Aí escrevo. Faço planos de ter paciência. Maturidade de acompanhar uma pessoa no hospital eu achava que não tinha. Lembrei da minha mãe reclamando do valor da passagem pra ir me visitar, daquela vez no hospital, mas levando fruta, doce, roupa lavada e lembranças dos parentes. Cada um reage de um jeito, e o amor que eu quero é o que me faz se deslocar e se propõe a me tirar de uma rotina interna. Isso é amadurecer. Tenho amor.
Saber que preciso escrever me deixa mais desesperada, enquanto que a gastrite, também, ataca de novo por causa das palavras reprimidas. Engulo-as, e elas, que são formuladas para o fora, se tornam indigestas quando não saem.
É parada também que os primeiros sintomas de saudade começam a aparecer. É o que me sobrou da etapa milimetricamente sonhada. Saudade de morar na Av Cauduro só porque ela é uma avenida de um quarteirão. Saudade de xingar o entregador de gás que batia o interfone de manhã. Saudade do Nimbus. Saudade do horizonte plano que me fazia caminhar -  Saudade que também é o nome do bairro que ando frequentando boba de feliz aqui em BH –, saudade de Porto Alegre; vivia inserida numa rotina, num grupo, numa família. Com um avião, o cenário vai sendo deixado para trás. Sem a Redenção; sem o pôr do sol no Guaíba; sem o Vale. Hoje eu sei que esperar o Silêncio abrir era mais do que desespero de jovem baladeiro, boladeiro, cachaceiro. Era o que seria uma das minhas maiores saudade. A outra é a de ver o mundo com o os olhos críticos dos textos da Magali. A faculdade nunca foi tão melhor que a vida real. Cada pé para fora de casa era a expectativa não decepcionada de histórias para viver. Todo dia, tudo estava prestes a acontecer. A maioria aconteceu.
O que eu senti em Porto Alegre foi o aperitivo de quem quer comer o mundo. Sensações reais que me deixavam tonta e, as vezes, até de cama. Não há substituição, mas há lembranças e haverá retorno. Sensação de dançar forró é a realização física o amor que eu sinto por Poa e pesa na barriga. Que cai e gastricamente eu sinto a reação disso no meu corpo. Me fez escrever. É viver. Eu vivi.

Há três meses chorava com medo.
Hoje choro de alívio.
Chorava por ter vivido,
agora choro
por continuar vivendo.
O medo era de não mandar se fuder
E não aceitar o que realmente gosta,
sem uma receita que argumenta
o jeito melhor de
moldar
sua história .
Assumir a colher de pau da sua vida e
escolher os melhores ingredientes
é como a lei do gnomo,
no seu próprio bolo,
quem bolou é o dono



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Lá e cá

Os janeiros se repetem quanto à saudade e à ansiedade. Os amores se renovam; os amigos se mantêm. A paciência... não existe. Falta pouco, é o que o novo janeiro me diz. Assim como o outro, na cama do hospital, também dizia. A diferença é que o reencontro tem data marcada e eu não vou abrir mão. Voltar pro pão de queijo. Abandonar a Polar. Eu sou convidada a me mover. Porto Alegre ainda me chama mais que São Paulo ou Bahia, mas Minas.. Minas grita!. Mas são duas da manhã e a minha cabeça dói. Fugir, fugir, foi o que eu quis e o esconderijo é exposto. O paradoxo entre os dêiticos de lugar é que nunca fizeram sentido pra mim. Sinto na pele o desespero do lá e do cá.
Minhas raízes estão no ar. Minha casa é qualquer lugar.
Assim como quem me roubava em Minas era a lua, no Sul passei a prestar mais atenção no vento e, aqui, ele bate manso. Eu sempre procuro lugares altos para me distanciar das confusões. Eu que não fumo peguei um cigarro e sentei na janela e aquele vento que não servia só pro cigarro queimar mais rápido me arrepiava. E eu sinto.
Eu estava no topo do mundo. E o mundo era Porto Alegre. Por mais que eu queira muito ir embora hoje isso não significa que eu não queira ficar.
E eu sinto que eu resisto e recuso um convite para um rompimento. Essa barreira é muito maior e também me prende. Eu preciso de forças e eu não sei onde conseguir. Paz espiritual pra manter a paz mental que aos poucos eu volto a perder.
A falta de rotina pesou. Pesou tanto que não conseguia levantar. Qualquer esforço maior era fatigante. O Incentivo vinha de um longe perto que sempre manda um cheiro pra saber se eu estou bem. E a recompensa. Esta vinha dos encontros empolgantes, frequentes e quentes. É difícil achar quem bota fé na sua.
E eu sinto toda a minha intensidade nas minhas costas agora. Tudo exige muito e eu quero viver tudo de uma vez. Antes de me deitar, eu preciso transferir algumas energias dos meus membros que estão doloridos de tanto sentir. Preciso acelerar meus pensamentos e viajar no tempo. Eu fico tentando carregar o mundo e tenho inveja de Deus, então o meu corpo fica mais pesado do que ele geralmente é. O tempo que Ele desafia eu usei pra ir até mim, naquela árvore, e dizer: pode acreditar que vai dar certo. O tempo é mesmo complicado! Eu vou perdendo as energias a cada situação repentina que eu tenho que enfrentar enquanto carregar o mundo já absorve muito. Por isso o contato com pessoas me é tão importante! É minha fonte de energia. Eu me desgasto, eu me renovo, me recarrego, sempre quando a energia é boa. É bom quando você recebe energia e quer passar energia boa. É reciprocidade. É como o pedal da bicicleta.
Sabe o beija-flor? É as coisas boas que ele traz pra casa da gente. Sabia que o meu corpo é meu? É minha casa. E Beija flor é consciência do corpo. Ah, vocês nem imaginam a diferença quando se tem espelho em casa. Eu quis mesmo ter noção de mim. A noção de existência deixa o corpo tremendo. Eu consegui me perceber! É bom você se olhar no espelho e ver que você É algo que um dia você quis SER. Rebolar bastante e se sentir atraente. Um mulherão danado! Que raridade!
Eu não só sou. Eu me tornei.
A sentença de quem não tem lugar é a saudade. Todo começo é uma despedida. Já a recompensa é o abraço de quem espera. Não falo de aprendizado porque o processo ainda não terminou. Mas agradeço! 

domingo, 23 de outubro de 2016

Finalmente Porto Alegre

Um dia eu teria mesmo de confessar que nunca usei muitos critérios para escolher essa cidade como destino e os motivos que me trouxeram para cá são muito mais subjetivos do que se pode pensar. Apesar de não seguir o padrão do que qualquer um julgaria como “aceitável”, os motivos são bem “convincentes”, eu diria. Mas raramente exponho. Os ventos desse destino que me esperava começaram a soprar muito antes deu saber que esse deslocamento podia ser real. “Ir o mais longe que eu puder” era a meta quando, em cabeça sonhadora e criativa, o corguinho no fundo do quintal da minha mãe virava o cenário das “grandes navegações” que eu fazia. A goiabeira que tinha à beira dele era o meu barco. E o meu binóculo de brinquedo antecipava a notícia de alguma possível tempestade que vinha ao longe ou algum outro imprevisto. O meu sonho, na época, era sair mundo a fora, desbravar, se aventurar e se distanciar ao máximo daquele sítio do interior do interior de Minas Gerais que, por mais que fosse aconchegante, era pequeno. A trilha sonora dessa trama, criava os efeitos especiais que, hoje, pra onde vim não de barco, mas voando, são os palcos reais das minhas “navegações”.
A consciência de que estou aqui é importante para constatar “as lembranças do futuro que a gente imaginava”. Ela vem às vezes quando chego na esquina da Osvaldo para pegar o D. E ela veio, também, do alto do vigésimo quinto andar de um prédio ali na Salgado. Ali é o Guaíba; aqui o Mercado Público; aquela é a Borges. É, guria, tu tá aqui. Tu veio. Já tenho achado chimarrão uma ótima ideia e já até coloco “ti” depois das preposições. Mas bah, rotina aqui não tem. A maior rotina que eu consigo ter aqui é a de reinventar o lixo na rua de madrugada. Nesse bairro que pelo menos lixo bom tem. O fim aqui é bom. E o caminhão de gás que, invadindo, toca, diariamente, o interfone e é decepcionado.
Assim como a aquisição da linguagem, se localizar deve ser alguma coisa adquirida na infância. Como na minha infância eu tive muito mais sonhos que práticas, quando me rodam nas ruas movimentadas, eu já não sei mais onde estou. Divinópolis é pequena e nunca saí muito do centro. Era fácil, mesmo se saísse, voltar para um ponto de referência. O sentimento de se sentir perdida se agravou a cada nova cidade que eu conheci. Aqui em Porto Alegre não é diferente. Percebo, a cada dia, como a falta de noção espacial é presente, até mesmo em relação a noção de corpo que sim, existe e ocupa um espaço, mas não se sente à vontade em ocupar. Um corpo que está perdido muito além do que aquele site de mapas poderia me mostrar, e se encontrar é o desafio que nem o minuano, ainda, conseguiu resolver. Mesmo assim, procuro sempre novas rotas até a Redenção. Ir sempre pela mesma é ter a falsa sensação de pertencimento. Ainda não aceito.
Por que antes eu aceitava muito. Sempre tive muito a influência dos grupos nos quais eu estava inserida, ainda que a vontade da maioria nunca coincidia com a minha. O pertencimento era ilusório. Todos precisam ter voz e eu, ao invés de acalentada, era silenciada. 
Não ter voz, nesse caso, não é não saber falar. Eu sei. 
Não ter voz não implica em ter vontades erradas. Eu vim pra confirmarem que, é, tomo as decisões menos prováveis, as que o “grupo” não tomaria, mas que eu acho pessoas que botam fé nelas comigo. Olhar de fora faz com que, ao invés de pensar que errei, eu procure fazer com aquele rumo também faça sentido. E chegue até um destino viável. Tenho cultivado a preferência por não reclamar, apesar de drama ser comigo mesmo. Ignorar a aula que eu não tive e aproveitar a passagem gasta até o Vale pra jogar uma sinuca com alguém da Toca. Ir até Guaíba para conhecer o além Rio. Conhecer uns roles diferentes da Cidade Baixa e ir pra Zona Sul. 
Continuo não fazendo o mesmo percurso até em casa. Tenho várias esquinas para atravessar a rua saindo da Faced, e a Garibaldi talvez não seja a melhor para isso. Nem por isso eu a excluo. Porque os nomes das ruas tem um padrão bairrista que me impressiona, e talvez sirvam para lembrar, cada vez mais, onde eu vim parar. 
Sempre procurei fazer comparações entre BH e Poa. São tantas que eu parei. De grande, além das bikes no Vertente, a diferença é a falta do comodismo que eu tinha lá. O errado é que estava tudo certo demais. Diz a lenda que eu aceitei o convite da lua e troquei minhas certezas por alguns sonhos mágicos. De certo aqui, tenho algumas saudades e o “zelo” de quem o bom dia é muito mais que uma expressão e sim um desejo.
Para desconstruir alguns estereótipos, moro com vegetarianos e não se ouve muito tchê por aqui não. “Rataria” é mais comum. 
Isso que eu escrevo tomou um ar mais conclusivo do que introdutório, porém dois dos seis meses ou dos vinte anos que vou ficar aqui é só o começo do que a guria do pão de queijo ainda vai experimentar. A lua não para de me chamar. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Afogamento

Eu vou querer olhar teus olhos antes de mergulhar em você.
Estarei me contorcendo de prazer, rindo.
Vou querer um beijo como quero agora
O corpo ficará quente ofegante pela falta de ar.
O suspiro é a volta à superfície.
O coração que havia parado, volta a bater forte
Então só restará nosso corpo molhado.
Vamos deitar lado a lado
para sentir.
Sem pressa
Sem preocupação
Sem vontade de nadar.
Teremos um silêncio confortável
Sem vontade de fugir.