Engraçado como a vida é injusta. O ônibus é passageiro, mas o passageiro não é ônibus.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Uma carta de amor para Sarah


Querida Sarah, eu já devia ter revelado abertamente, desde o início, que meu blog foi feito para você e não apenas deixar subentendido em cada postagem ou em cada diálogo indireto com seus textos.
Faço agora.
Por que, primeiramente, assumimos que somos almas gêmeas da escrita e, agora, por que constatamos que somos almas gêmeas do amor, decidimos nos casar e fazer a união dessas almas separadas no nascimento, permitindo a elas, agora, viverem suas etapas e crescerem juntas.
Um amadurecimento e todas as conquistas juntas por que não é fácil se sentir sozinho, não é? Pensar que talvez ninguém notaria nossas ausências se decidíssemos sumir por alguns dias... já que não sabemos direito aonde ficam nossas casas e não há ninguém que entenda esses nossos horários corridos. Por isso iremos nos juntar. Pra termos esse cuidado mútuo.
Eu queria ser essa pessoa que vive um amor bonito e não essas misérias. Nem que fosse uma paixão, mas recíproco. E fazer coisas que engrandecem a alma por que fico me sentindo vazia toda vez que não me permito atravessar a rua sem ser na faixa. E deve ser muito melhor quando é reciproco. Nunca falei de namoro e sim de uma entrega mútua com assumo de riscos. O que a metáfora do casamento assume.
A vida é muito solitária, Sarah, faz falta isso. São fases. E a nossa de algum tempo atrás se desfez ao percebemos essas buscas vazias de prazeres efêmeros. E começamos a sentir preguiça dessas obrigatoriedades pós funk e porres. Se você fosse lá, conversasse sobre a vida, conhecesse um pouco, tivesse a oportunidade de conhecer mais e depois beijar, seria legal. Por isso que eu falo, nem monogamia eu gosto muito, porque gosto de ter a opção de conhecer outras pessoas, apesar de ser muito ciumenta e de odiar a ideia de que podem ser felizes sem mim.
Que um dia, então, possamos atingir o grau de maturidade nesse nosso amor, para que não precisemos estarmos a sós. Apenas ter esse sentimento que é tão bom: querer conhecer mais uma pessoa e gostar do que vai acontecendo, cuidar dela, sofrer com os problemas dela mais do que com os seus. Ter não uma individualidade, mas uma recorrência.
Não estou sofrendo por ninguém, estou sofrendo por situações. Mas acho que não se deva privar de sofrimento. Se você tiver sofrendo por alguém, sabe, Sarah, que sofra por alguém. Não precisa demonstrar falsa força.
Ainda não derramamos lágrimas. E esse é nosso encontro pra poder chorar de amor ou da falta dele. Pra poder consumar a promessa de virada de ano. E a carta é essa, minha amiga, minha pré esposa, minha autora favorita, essa é a carta sobre o mundo que não nos entende e sobre uma conversa despretensiosa, mas muito cheia de poesia.
Até breve!

Com muito amor, da sua Cássia.


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Um poema sobre você

Será mesmo que estou pedindo tanto assim?
Será que você realmente não pode dar?
Se dar
Me dar
Doar
Voar               eu sei que você quer
Eu também
Será que realmente é muito apenas voltar?

Senta aqui do meu lado, no meu colo, na minha frente, na minha boca
Senta aqui e me conta do seu dia
E me deixa
 apenas
escrever
um poema sobre você

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Cenário

Ela rodopiava e se exibia no meio do salão. Girava os braços e falava alto. Enquanto a multidão se aglomerava ao seu redor. E eu, num canto, com ombros caídos, assistia, sem participar, ao espetáculo que ela produzia. Ela me chamava, eu ia, obediente. Me passava o cachecol de seda, me enlaçava, me dava um beijo no pescoço, e eu tinha o meu momento, sem saber qual conclusão tiravam sobre mim. E, quando ela me soltava, eu não ia atrás, ficava esperando ela me chamar outra vez por que não sabia o que ela queria que eu fizesse. Ficava esperando e rindo do quão à vontade ela estava. É uma criança, eu pensava, que gosta de chamar a atenção e não sabe ficar parada. E eu, uma tímida, que sonhava ser atriz da nossas vidas, naquele momento apenas querendo ser protagonista com ela.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Bicicleta

Antes escrevia na esperança de que vissem, e hoje demoro a escrever com medo de você achar que estou escrevendo para você (constatar isso, na verdade) e entender errado. Demoro a escrever porque me sinto culpada de largar a leitura dos textos teóricos ou dos livros que eu comprei ou que queria ter comprado. Demoro porque sábado tem festa e segunda tem prova. Tenho demorado mesmo. A responder cartas, a ver filmes, a ligar pra minha mãe, a procurar um médico ou trocar o brinco do segundo furo.
Para ilustrar: tinha tanto tempo que eu não andava de bicicleta! E esse passeio na orla só serviu para eu ter certeza de que eu devo confiar mais nas minhas intuições (devia ter pegado matéria a noite!) e procurar realmente o que me faz bem. O vento no rosto é um amor desde criança e isso que eu devo procurar: os meus amores. Assim como me manter com as pessoas que me deixam à vontade. Para falar de coisas simples: depilação, menstruação, unhas, sexo e sexualidade ou defender numa conversa saudável que qualquer mulher pode usar o que quiser (inclusive turbantes), se quiser, quando quiser. Sei que a minha maior deficiência, hoje, é minha preguiça, mas muitas das vezes a preguiça é falta de paciência mesmo. Porque não quero precisar conversar, a todo momento, com medo do que vou dizer, tendo que me impor ou tentando te convencer de que posso ter boas ideias (ou ideias parecidas com a suas). Essa sou eu, com uma formação e uma personalidade própria. Contraditória, confusa, vulnerável e, ao mesmo tempo, determinada, empenhada, decidida; intolerante a julgamentos generalizados e prévios.
Odeio o adjetivo ‘inocente’. Principalmente quando usam sem saber da minha história, do meu percurso, das minhas conquistas. Mas odeio mais ter que ficar provando que não sou. Porque talvez seja mesmo, uai: toda vez que abro mão de pegar um ônibus pra acompanhar uma pessoa até em casa; toda vez que acordo cedo pra fazer café e oferecer pros outros; ou quando convido quem eu gosto pra vir pra minha casa, esperando muito que venha sem ela ter dado certeza (quarto andar!). Ou talvez isso seja outra coisa, só não cabe a um outro dizer.
Minha preguiça existe e ela é maior no sentido de ‘falta de paciência’. Mas paciência no sentido de ‘saber esperar’ eu estou conseguindo adquirir. Sonhei com os meus sobrinhos e fiquei lembrando deles durante o dia, pensando no tanto que eu podia tentar aprender e ensinar, pacientemente e gradativamente. Mas eles estão longe. Tenho paciência ao, devagar, cortar frutas pra fazer salada. E acredito, inocentemente, no amor não só verdadeiro, mas também generoso, mesmo achando que é necessário também sorte. Tento relaxar toda vez que o vento bagunça meu cabelo e eu pacientemente arrumo de novo, mesmo sem saber como arrumar. E assim, eu vou com a bicicleta, com o vento, mas me falta o ar.

domingo, 23 de agosto de 2015

Para falar sobre Diamantina

Foto: Wesley Villagrán

Eu sou mesmo essa contradição que mantém duas conversas em mensagens instantâneas e enquanto falo para uma pessoa "fica com Deus" para outra eu falo de modo que fique é com desejo
Eu falo pra uma pessoa que estou escrevendo sobre ela. Assim, na cara dura e como um pintor pede para a pessoa não se mover para conseguir registrar aquele momento. Acontece que as pessoas não são estáticas. Pra me irritar são inconstantes. Elas são multiformes e mesmo assim eu seleciono as palavras pra definir, limitar naquele espaço de significação, e ver se consigo ser artista 
E não ficar de fora dessa mesa. Você? Ah, eu sou cantor. Eu toco. Eu movimento o corpo. Eu faço um oral que é uma beleza. Tudo artista! Eu escrevo. Não estou falando que é bom nem que gostem. Só que é arte. E aquele que sozinho aprendeu uma outra língua ou a iluminar a casa? Não é um artista?
Tem muita gente tendo as mesmas ideias de diferenças e acabam sendo iguais demais. E eu com essa mania de querer se identificar, não me identifico. E estou certa de que estou vivendo de maneira errada: está faltando algumas paixões efetivas aqui. Não sei o que é pior: se ter esse sentimento mais bobo que o normal ou esse sentimento ter um nome pra gente saber o que tem. Platonismo, é.
Não, não, Machado de Assis. Nenhuma Carolina conseguirá comprar a paixão.
Nem os cubos serão tão mágicos
Mas, uma paixão só eu não consigo. Não consigo. Se me quiserem, já me levem usada, ou diria, com defeito.
A cidade natal que é terra seca, infértil, não produziu sentimentos assim; enquanto que qualquer outra me reapaixona constantemente
Esse é o momento que eu falo de Diamantina. E como queria falar assim: abertamente. Sem metáforas ou ideias confusas que só fazem sentido pra mim mesma (e que bastam em sua confusão). Queria, mas a as lendas dos diamantes ou a lenda da Xica não permite que seja algo sem mistério. Mas eu falo
Da vida que me foi resgatada. A paixão serve pra mostrar que está vivo e Diamantina me reviveu. Porque as pedras e as ladeiras já contam algumas histórias (ousadas, até), mas a gente queria fazer a nossa, e ter várias pra contar. Seja sentados em frente ao número quatro para aproveitar o sol, cumprimentando quem passasse, seja tendo, primeiramente, uma boa noite. A simplicidade do interior de comer assistindo televisão e a modernidade de bares frequentados por pessoas bonitas pode sim pertencer a uma mesma cidade. E pode sim tirar da realidade quem não se permite muito, se tiver sóbrio.
No caminho havia alguns moinhos de vento, mas deve que eram dragões e eu, ainda, com meu excesso de falsa realidade não enxerguei direito. E o redemoinho que me veio trazer a notícia de que seria uma boa viagem era o Saci. Esse eu reconheci. E sorri, porque acreditei.
Como estudante da área que sou, preciso comentar que o falar diamantinense é indefinido como o nosso horário pra voltar pra casa. É "casa de fulano" "filho de alguém" nunca com artigo definido.
Essa cidade foi o intervalo entre os cronogramas. Novas visões sobre uma arquitetura e um novo parceiro pra conversar sobre artistas e os anos de cada novela. Viu? Muitas coisas foram resgatadas e nenhuma tradição precisa ser seguida se não agrada.
Prefiro assim, ir acumulando inquietudes até uma nova cidade me encantar, me acalmar, me apaixonar e me chamar pra ficar. E eu recusando até um dia eu aceitar e poder dizer com a convicção do sentido que a preposição oferece, assim mesmo, sem muita formalidade:
T'inquiètes pas. Je suis chez moi


domingo, 9 de agosto de 2015

Sobre um Sábado


Eu te olho e sinto a extrema 
necessidade de sentir seu rosto,
desarrumar seu cabelo e rasgar sua roupa
Sentir me arranhando, as
unhas que você olha, distraída,
na pura prática de ser você

Quero te comer,
te chupar, te causar arrepios e
deixar marcas.
Preciso da sua cintura pesada numa mão e a nuca em outra.
Enquanto te encosto na parede
Numa tentativa de fusão


domingo, 12 de julho de 2015

A fim de que: metas.


Mais uma vez eu falo da perfeição. Da sua busca com intenção de não ficar parado. E a sua impossibilidade de ser alcançada a fim de que nunca estejamos saciados. “Quem é completo não deseja.” Umas perfeições pequenas para chegar em algo maior. Ainda que não saibamos muito bem o que procuramos ou ainda que só continuamos isso que começamos pra ver no que vai dar, sem muita confiança de que dê algo bom. Somos essa juventude que sabe o que quer e sabe o que não quer também. Temos os nossos objetivos finais: mudar a história da família; provar para os outros que podemos ser diferentes; fazer com que toda a vida tenha um eixo, sem muita contradição; exigir dos empregados que escolham uma suíte individual numa viagem para Itália. Eu só quero não ter que casar.
Mesmo sendo o movimento incessante a realidade desse agora, há a necessidade de uma pausa para descanso. Descanso calmo para readquirir as habilidades de respirar e de contar até dez. Uma escapada da nossa rotina para relembrarmos porque quisemos estar nela. Acordar sem saber que horas são e deixar o celular de lado pra aprender a descascar abacaxi.
O ideal mesmo é que haja metas. E que haja pausas sempre que elas forem alcançadas. Alcancei um vento no rosto sem ter o cabelo bagunçado, foi o que eu alcancei. Isso por que agora meu cabelo é curto. Alcancei uma liberdade, sem desespero para vivê-la. Alcancei oportunidades e experiências. Finalmente naveguei no barco que por tanto tempo construí. Agora só estou perdida mesmo é que tenho pouco tempo pra traçar metas até a próxima pausa programada. Sem falar que o cansaço do qual eu venho produziu certo desinteresse.
Devia namorar porque combina mais comigo; devia aprender a nadar e tocar um instrumento, para não pensar que minha infância foi de toda isenta; devia praticar um esporte para ser saudável; aprender sobre política, educação, futebol, crise mundial, para expandir os assuntos com os meus amigos versáteis; aprender inglês, francês, para conversar com o mundo. Mas está tudo muito mecânico.
Vamos da faculdade para a casa e nem uma rota nova experimentamos. Servimos metodicamente o arroz primeiro, depois o feijão, sem a curiosidade de experimentar inverter a ordem.
Subverter as regras em forma de protesto pode ser só comer de colher.
Fugir à regra pode dar trabalho, então há tanta gente parada. E se cala para não arrumar desavenças com os outros, só consigo mesmo. Por que foi assim com o avô, foi assim, e será assim, sem dar certo.
Por eu ter sido criada muito tradicionalmente e não ser muito tradicional, tenho essas tristezas assim, paradoxais. Fico pensando no medo que sentirei ao levar minha filha em uma festa [pro mundo perder], ao mesmo tempo que acho que nem mãe serei. Mais próximo, fico pensando que dia eu vou pedir pros meus sobrinhos pararem com essa bobeira de me chamar de senhora, apesar de achar um respeito bonitinho.
Tenho motivos para agradecer ambas as partes por me influenciarem, mas quero ter a minha autonomia. Quero ter poder de persuasão e saber analisar discursos. Quero saber como conseguir falar em público e ainda quero fazer minha viagem por Minas. Quero conseguir andar sozinha em uma cidade nova
E um verso avulso que encontrei perdido por ai dizia que

ou eu não estou pronta pra amar



domingo, 21 de junho de 2015

Ritmo

A vida estava assim, calma demais. Estava uma bossa nova, uma tarde de domingo, um baralho pra uma pessoa. Estávamos indo, esperando ela própria decidir o momento de cansar. Ela que manda, eu sou submissa, eu apenas recebo. E de repente, ela remexeu, sacudiu, e virou um funk, batida rápida. Outro jogo. A mudança súbita de ritmo me fez perder o passo e caí. Caí tropeçando, sem me machucar, mas com marcas. E tudo ficou instável. Uma incerteza e um medo constante de tudo se esclarecer. 
Tem dias que eu penso que as estrelas são infinitas. Tem dias que eu penso que as estrelas são passageiras e no dia seguinte elas não vão aparecer, tem dias que eu olho pro céu e me pergunto por que, mas por que elas ainda continuam lá? Será possível que elas não percebem que tudo mudou? E que nada continua do mesmo jeito, ou seja que amanhã será um dia igual?, isento.
Por isso se escreve, porque as coisas saíram do normal - olha o tempo que não bebo coca cola. O meu lápis de escrever, já quase sem ponta, só escreve bonito se for na parede. Que está esperando como uma pele nunca tatuada.
E essa vontade de ter experiências que não é saciado?
Ânsia.
E calma com um sorriso debochado (ou uma saudade?) no café da manhã naquele lugar. Uma desculpa, um agrado. A falta de reciprocidade gera resultados, uma aceitação: Joguei fora as flores que você me deu. Eram de plástico.
Quanto ao ritmo, talvez o cíclico seja o mais fácil. E o que todos dançam talvez não seja o que eu quero pra mim. Eu tenho o meu e estou bem com isso. Continuemos sem que eu precise limpar o batom da sua boca. Ou que o choro seja percebido enquanto o outro aproveita.
-Quando você sair pode deixar a luz apagada e a porta destrancada. 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Talvez, Às vezes, Assim,

Talvez eu não tenha estado sóbria o suficiente nos últimos dias para poder escrever e me custe muito manter os olhos abertos devido ao sono. Eu falo de tanta coisa superficial, explícita que me ler deve ser bobo. Falo do cotidiano, do que acontece, do que percebo. Sabe-se lá se isso é poesia. Se é prosa; discurso religioso. Ou conversa fiada. Subverto as regras da variante padrão, que em determinados ambientes devo prezar, e incentivo uma variante, mescla de mineres e despreocupação. Que é o que estou tentando ter. A preocupação é exagerada, confesso. Sigo traçando metas para tentar alcançar uma calma. Desculpa, entende meu desespero. Tem dias que é difícil mesmo e não é só o pré sangue que nos desestabiliza. Nessas horas se respira e se deposita, no contato pessoal, a fé de uma calma. Vem cá, Ale, ficar de boa, ouvir Betânia e me trazer tranquilidade nessa noite estranha.
Mas ô, esse friozinho não cheira a café quente?
Às vezes eu penso que eu devia ter mais autonomia e me desprender, não depender. Afinal, nem estamos querendo as mesmas coisas. Mas às vezes eu penso que sim, estamos na mesma sintonia. Por que é uma calma estranha constatar que, despretensiosamente, acabamos encontrando pessoas que compartilham das nossas esquisitices. E que, sei lá, alguma força nos atraiu para o mesmo caminho. Histórias tão diferentes que se converteram pra uma noite de luz rosa – a noite era toda rosa!  A sintonia às vezes se distancia. E, gente, é sério, eu realmente tenho medo de cobra. Não me chamem pra ir pro meio do mato. “Vamos no zoológico. Lá você perde o medo.” Lá eu vejo as cobras atrás de um vidro. Não, não adianta. É fobia. Desculpa de novo. 
Com as mudanças, com as decisões, com a coragem eu ganhei uma liberdade, mas ainda sinto falta de rezar. Ô, Deus, me perdoa por levantar da cama nessa manhã chuvosa. Chuva que atrapalha, mas pode ser propícia, dependendo do desejo. Com desejo é bem mais fácil.
Agora, oficialmente, eu carrego Minas no peito e tenho casa pra receber amigos. Tenho uma agenda, tenho um beija-flor; e as barbas da Fafich andam pra me desestabilizar. Assim como as unhas grandes. Quanto mais opções mais dúvidas. Se eu não citasse a Sarah é que seria errado. “Honestamente, agora eu só queria descer minhas dez unhas já meio descascadas numas costas aí." Na verdade, é até bobagem eu escrever. Porque ela é quem diz. Dentre as opções, escolher é se limitar. Não tem dúvida se tiver desejo. Com desejo é bem mais fácil.
Descobri que meu ascendente é gêmeos e agora tenho desculpa pra minha indecisão. Oscilação e possibilidades. Talvez, às vezes, assim,
Talvez meus dias estejam se repetindo e seja tudo muito parecido. Ou talvez eu tenha escolhido ir buscar as experiências, deixando de teorizar, e estas estejam acontecendo de uma forma tão natural que não me causam estranheza. Escolhi ir, mas ainda escrevo, para ver na minha frente, estruturado de fora, o que está em mim. 


domingo, 5 de abril de 2015

Passando Pelas Idades.

Divinópolis, que é polo confeccionista, já tá com a moda de inverno. BH, que é uma indecisão, nunca me permite saber se chove ou faz sol; só que meio dia é a hora que, com chuva ou sol, faz muito calor. Preciso me organizar na cidade que moro agora, marcar meus médicos lá, comprar roupa lá, cortar cabelo lá, reparar os detalhes do comportamento das pessoas lá.
Fui subindo a 1 de Junho, pensando no aniversário da cidade que dá nome a rua, olhando as vitrines com as roupas de frio que tem um lugar reservado no meu coração, querendo que fosse necessário usar aquelas roupas quentes, o que no momento parecia algo absurdo, impensável... Encontrei a Tia Glorinha ali, quase chegando na catedral, dei o braço a ela e seguimos até o prédio.
Entrei e tomei café de vó feito por tia e saboreei as histórias da vida que não presenciei; que ficara. A foto do Padre Libério na folhinha de 2015 fez eu perceber que é, já estamos em 2015, e render uma história que sem freios chegam na Vó Carmélia, que é minha bisavó, e no vovô que é meu avô.
“Seu vô, naquela paciência, arriava a égua e ia lá em Ermida buscar umas balas pros meninos. Dona Carmélia, naquela bondade, acendia o fogão de lenha e nós ficava sentados no rabo do fogão.”
Sei que minha bisavó, nessa ocasião, gostava de contar histórias de mula sem cabeça e xingava os meninos que não acreditassem. Queria ter escutando uma dessas histórias. Eu teria gostado, minha mãe diz.
Do vovô eu lembro, tomando café e fumando o cigarro de palha. Ou tentando fazer com que a égua me obedecesse. Nunca conseguimos.
Foi na missa do Crisma, tia?
Nada. É demorada ne? Os meninos falaram pra eu deixar e ir na missa a noite. Lava-pés.
As palavras simples, na boca de uma mulher que se define pelo amar, ficam tão doces e puras. Mulher elegante que não sai de casa sem um batom, mas que prefere mesmo é a caridade. Dona, tia, vó Glorinha... Poderia ficar muito ainda conversando sobre as histórias que contribuíram pra formar a história que tenho hoje. Apreciando a delicadeza dos contos, dos causos, das percepções, das saudades, das mudanças.  Sem preguiça, sem cansaço, sem sono. Mesmo tendo sido acordada cedo, no dia, com o barulho escandaloso dos meus sobrinhos brincando na sala.
Abri os olhos com a tradicional revolta de ser acordada cedo num dia de folga, mas lembrei o quanto estava com saudades daqueles pequenos. Fiquei um tempo deitada ainda escutando como a conversa se daria, analisando o comportamento que seguia sem interferências da ‘gente grande’, a forma como interagiam. Aí, a sonolência foi dando lugar ao amor que transbordava e finalmente levantei pra receber, de bom dia, abraços fortes e empolgados.
Minha tia as vezes fala que acha que Deus já tá quase chamando ela. Os meus sobrinhos brigam por que querem os mesmos brinquedos. Eu estou no meio. Tentando adquirir paciência e aprender com as duas extremidades da vida. Escutar, brincar, rezar. Levar a sinceridade das crianças e poder contar os causos saudosos, quando for mais velha.  Eu estou no meio. Me permitindo alguns minutinhos da semana pra passar esmalte vermelho, sem saber qual roupa usar no próximo fim-de-semana. Conversando com pessoas que falam que eu posso me tornar doutora, um dia – pessoas em quem eu acredito. Sofrendo calada com o ciúme que sinto dos meus amigos e com a saudade dos que eu não posso ter comigo. Lembrando daquele moço pra quem eu dei um doce, generosamente. Moço que já me causou arrepios e hoje não sei onde está.
Nunca tinha parado pra escutar rádio em BH e fiz isso dentro do carro. Tocou música boa, mas não tinha espaço pra abrir os braços. Mudava de estação e o tempo ia passando. Agora eu já sei quando estou chegando na Raul Soares e daqui a pouco tenho vinte anos. Quem diria que na universidade preferiria, inicialmente, a teoria da linguística? Mas largo literatura não. O tempo vai passando. Já foi Semana Santa de novo e, é moço, foi sexta-feira da Paixão, da paixão, e você sabe bem o que isso sempre significará. Significará que na lua está o coelho e que o coelho trará o chocolate do nosso domingo.
É sexta-feira da Paixão e não tem comunhão. 

domingo, 29 de março de 2015

Poesia Palhaça

Ando estudando sobre poesia esse semestre. Muita teoria, claro. Uma dessas teorias diz que a poesia em si está por aí, e você, enquanto receptor, a percebe e define o quanto aquilo é poético e como brindar com alguma arte, de alguma forma. É só uma das teorias, uma das. Acho que foi isso que aconteceu nesses últimos dias. Eu sentia a poesia nas coisas, mas acredito que não conseguiria transformar a poesia das coisas em poesia das palavras. Não soube, ou não quis, transformar em poesia escrita a poesia que sinto todo dia quando acordo e olho o céu pela janela pensando se pode chover, pra decidir se deixo a janela aberta enquanto estou fora – e a poesia de, mesmo sem concluir nada, eu já ter aprendido a sempre deixar a janela aberta pra arejar meu quarto. A essência ficaria, e não seria poético.
Estava no ônibus num desses dias de absorção poética e entrou um vendedor de jujuba fantasiado de palhaço. Que palhaçada pensei e abaixei pra rir da besteira recorrente. O palhaço nas suas palhaçadas, pensei também, é pra chamar atenção das crianças. Marketing. A mãe comprou o que o filho queria e a mãe teve prazer de satisfazer a vontade do filho. Nunca fui, nunca quis ser mãe, até então, até sentir a necessidade dessa felicidade generosa. Desci do ônibus ali perto da pracinha e vim observando as mães com os filhos num fim de tarde, brincando com eles e com o cachorro que buscava obediente a bolinha que mandavam buscar. Aí então, a poesia estava em ser mãe. Liguei pra minha e ela me deu uma das maiores felicidades dos últimos dias, simplesmente me contando que estava feliz. (A poesia estava em ser filha). Enquanto me deliciava com as criancinhas e suas mães, me deparei com uma criança fantasiada de palhaço. Nada de palhaçada. E sim uma das coisas mais fofas que podia ter. Deve ser dia do palhaço, pensei. Era o dia do Circo, descobri, e tudo do dia fez muito sentido. Assim como ter tido o dia da poesia alguns dias antes.
Pela leveza que vou encontrando nesses dias, eu “cansei de carregar milhões de medos das pessoas que me cercam e me pesam de agonia”; foi o que me libertou para querer conhecer mais pessoas. E querer viver a poesia mínima. Ir numa festa a noite, beijar uma boca macia, ter mão na cintura, levar alguém em casa, entrar pra ver um filme, comer pipoca, brigadeiro, pizza caseira, dançar forró, ir no vizinho ‘bater papo’ ...
Sigo tendo os meus dias de não me importar muito com as regras, com os deveres, com as responsabilidades, em agradar, em conquistar. Escrevendo uma frase com inversão de integrantes sem colocar vírgulas e divulgando textos como esse.
Dos dias mais poéticos o melhor foi o dia que estava escrito repenso e eu li dispenso.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A Vida em Tópicos


“Você só sabe que é bom dormir porque é ruim acordar”
É uma mágica, assim como pipoca.
“No beijo as línguas agem”
Forma de comunicação – Linguagem
Família,
Sexo,
Acontecimentos recentes.
Ela deixou eu pegar na mão dela:
“Para todos pensarem que a gente namora”.
E quando aquele moço chegou,
Ela não a soltou.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Entre Viagens

O gente, to viva. Viva mesmo. Peguei a condução e fui... viver. Voltei, mais viva que nunca! Por que a vida tem dessas situações inusitadas que nem a física explica. É bem maior que ela. Tomar essas decisões precisa ter coragem demais; e tempo. Porque depois virou uma correria. Nós precisamos de paciência. Peço a Deus que me dê e vou vendo como que eu posso retribuir. Não ser afobada, ver meus sobrinhos crescerem devagarinho, reservar uns minutinhos pra ler revista, pra escrever também. Eu devia ter escrito pra Sarah. Mas escrever pra ela é difícil demais. Esses trem clichês, esses trem bobos. Só que as vezes eu paro e fico pensando nela. Eu não queria ter nada da Sarah, eu acho. A generosidade, o jeito de escrever, nem a determinação pra entrar na roupa eu queria. É que essas coisas, como a roupa, ficam melhor nela. Ela é autêntica, essa menina, e recebe os outros na casa dela de pijama mesmo, uai. Da Sarah eu gosto de ter a companhia por que ela fala de umas coisas que me faz rir e umas coisas bonitas (por mais que ela ache que não) sobre amor; e até compartilhamos um que é o amor pela cidade onde moramos. E cada vez mais eu amo a cidade onde ela mora. Vou lá, sou bem recebida. “Tem iogurte, comprei procêis!”. Ah, se fosse pra escolher alguma coisa da Sarah eu queria ter era a casa pra receber amigos. Não tenho. Mas o meu coração abriga um monte de gente. E é ruim demais receber pouca gente. Gosto de casa cheia. Pra fazer almoço no domingo, com suco de limão, milho e baralho pra digestão.
Nos domingos de manhã eu também queria conhecer as igrejas de BH. Queria chamar alguém pra ir à missa. Cada domingo numa igreja diferente. Pegar uns ônibus, ir pra uns bairros que poucos sabem onde ficam, só porque fui convidada pra comemorar o dia da padroeira. Conhecer os grupos de jovens, ser engajada e cogitar a castidade. Mas alguns hábitos eu perdi e dos antigos eu mantenho só o de beber café todo dia. É meu vício.
Se eu parar pra lembrar de quando imaginava eu jovem, isso não fazia parte mesmo não e, talvez, se analisarmos, nossa juventude esteja acontecendo, viu. Dá medo pensar na idade que já temos, nas responsabilidades que vieram com a idade e da postura responsável que não veio. Por que estamos na parte do jovem que já é adulto, sem se dar muita conta disso. A Bárbara me chama pra morar junto com ela e meu coração fica apertadinho, apertadinho. “Quero demais, moça!”, mas não vai ser nessa parte da juventude. Penso que talvez, sim, ela esteja acontecendo e da melhor maneira. Sem vícios em ilícitos, curtição de vida adoidado ou desespero, mas com a diversão de uma adedanha no fim de uma noite cansada e, ironicamente, a inocência se perdendo com brincadeiras. Uma fuga da realidade olhando pro mar duma pedra enquanto a inocência novamente se perde com um homem desejando o corpo de outro homem, quase nu, meio molhado. “Que que você estava pensando, Alice?” “Ah, tanta coisa!” e um suspiro. Suspirei também por que era tanta coisa mesmo. Mais do que já pensei nesses ônibus que eu pego...
Minha relação com ônibus é dúbia. Gosto e não gosto. Por que ônibus pra mim representa duas viagens. O deslocamento e a criatividade. Ele é a minha inspiração. Crio, imagino, converso comigo mesma, até rio alto do que penso. Já chorei também. E é bom. Eu sinto estar em paz com quem eu sou – pessoa lúdica que gosta de brincar, criar, imaginar. Quanto mais longa a vigem mais viagens acontecem. Porém, se o negócio é ônibus a noite, com a necessidade de dormir numa de suas poltronas desajustadas, eu passo. Começa a briga. Sento, deito, viro, não tenho colo, não tenho ombro, nem mão. Eu quero viajar pro Rio de Janeiro outra vez, mas quero ir durante o dia, igual eu fui pra São João Del Rey, reparando cada plaquinha das cidades que passávamos, cada igrejinha; cada folha de árvore. Pra ver se eu consigo conhecer direito esse meu Brasil. Familiarizar com a estrada, igual me familiarizei com o pedágio perto de Itaúna. Cidade que eu olho e penso que a Laura não está mais ali. Ela também já foi embora... Quero saber os nomes das rodovias e, quando for a hora, conseguir pegar a minha própria condução e sair de novo, sozinha, e ir... viver por mim mesma. Mas nesse dia, não sei se terei dia de voltar.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Sobre a Chuva



Que saudade de correr na chuva que eu tava! “Vai sair com essa chuva pra cair, menina?”. Lá fui eu encontrar com ela. Quando encontrei tive medo e voltei correndo. Ela me pegou. Corri mais rápido. Fechei os olhos, corri, não precisaria parar. Não foi igual ao dia que fugi de bicicleta, mas senti as gotas no rosto e respirei como há muito não respirava.
Os últimos dias tem sido a pão e água. Gosto da liberdade de escolher. Gosto da liberdade. Prefiro a solidão quando opto por ela. E a saudade boa mesmo é quando você sente falta daquilo que sabe que vai ter de novo; o resto é tortura. Que saudade de pedir hambúrguer. Já pararam pra pensar que genial isso de delivery? Você liga... Eles entregam! Em casa... Genial!
As tréguas do ócio eu encontro nesses contatos com pessoas. O primeiro abraço do ano foi em quem não gosta de abraço. Ou quem aprendeu a gostar. O ano começou com um selinho triplo de meninas! Três meninas, meu Deus! O ano começou com poucas saudações. Pra uns eu desejei trepadas, pra outros farras, pra outros dinheiro, sucesso, saúde, paz, felicidades. Pra mim, amigos. Eu desejo o que eu acho ser melhor pra eles, mas eu... Eu vivo por eles.
O ano terminou com algumas verdades se expondo. “Eu perdi o meu medo da chuva!”. E assumo, quando eu digo que eu não tenho medo da morte é mentira. Mas meu medo é de morrer sozinha, sabe, sem ninguém pra contar pros outros como aconteceu, sem ninguém pra eu olhar pela última vez e pensar que amei – besteiras! Meu medo é da solidão, na verdade. Medo de não amar. A solidão é uma morte pra mim: tenho medo mas corro em sua direção. É como a chuva. O não-amor também. A verdade é: quando eu omito, desvio o olhar. Se querem me ajudar, prendam meu olhar. Escrevam sobre mim.
Agora minhas unhas estão grandes e bonitas e eu nem sei por que eu quis isso. Meu cabelo já nem é o mesmo. As pessoas vão sendo felizes sem mim... Os raciocínios não seguem uma linha.