Um dia eu
teria mesmo de confessar que nunca usei muitos critérios para escolher essa
cidade como destino e os motivos que me trouxeram para cá são muito mais
subjetivos do que se pode pensar. Apesar de não seguir o padrão do que qualquer
um julgaria como “aceitável”, os motivos são bem “convincentes”, eu diria. Mas
raramente exponho. Os ventos desse destino que me esperava começaram a soprar
muito antes deu saber que esse deslocamento podia ser real. “Ir o mais longe
que eu puder” era a meta quando, em cabeça sonhadora e criativa, o corguinho no
fundo do quintal da minha mãe virava o cenário das “grandes navegações” que eu
fazia. A goiabeira que tinha à beira dele era o meu barco. E o meu binóculo de
brinquedo antecipava a notícia de alguma possível tempestade que vinha ao longe
ou algum outro imprevisto. O meu sonho, na época, era sair mundo a fora,
desbravar, se aventurar e se distanciar ao máximo daquele sítio do interior do
interior de Minas Gerais que, por mais que fosse aconchegante, era pequeno. A trilha
sonora dessa trama, criava os efeitos especiais que, hoje, pra onde vim não de
barco, mas voando, são os palcos reais das minhas “navegações”.
A
consciência de que estou aqui é importante para constatar “as lembranças do
futuro que a gente imaginava”. Ela vem às vezes quando chego na esquina da
Osvaldo para pegar o D. E ela veio, também, do alto do vigésimo quinto andar de
um prédio ali na Salgado. Ali é o Guaíba; aqui o Mercado Público; aquela é a
Borges. É, guria, tu tá aqui. Tu veio. Já tenho achado chimarrão uma ótima
ideia e já até coloco “ti” depois das preposições. Mas bah, rotina aqui não
tem. A maior rotina que eu consigo ter aqui é a de reinventar o lixo na rua de
madrugada. Nesse bairro que pelo menos lixo bom tem. O fim aqui é bom. E o caminhão de gás que, invadindo, toca, diariamente, o interfone e é
decepcionado.
Assim
como a aquisição da linguagem, se localizar deve ser alguma coisa adquirida na
infância. Como na minha infância eu tive muito mais sonhos que práticas, quando
me rodam nas ruas movimentadas, eu já não sei mais onde estou. Divinópolis é
pequena e nunca saí muito do centro. Era fácil, mesmo se saísse, voltar para um
ponto de referência. O sentimento de se sentir perdida se agravou a cada nova
cidade que eu conheci. Aqui em Porto Alegre não é diferente. Percebo, a cada dia, como a falta de noção espacial é presente, até mesmo em relação a noção de
corpo que sim, existe e ocupa um espaço, mas não se sente à vontade em ocupar.
Um corpo que está perdido muito além do que aquele site de mapas poderia me
mostrar, e se encontrar é o desafio que nem o minuano, ainda, conseguiu
resolver. Mesmo assim, procuro sempre novas rotas até a Redenção. Ir sempre
pela mesma é ter a falsa sensação de pertencimento. Ainda não aceito.
Por que
antes eu aceitava muito. Sempre tive muito a influência dos grupos nos quais eu
estava inserida, ainda que a vontade da maioria nunca coincidia com a minha. O
pertencimento era ilusório. Todos precisam ter voz e eu, ao invés de
acalentada, era silenciada.
Não ter
voz, nesse caso, não é não saber falar. Eu sei.
Não ter
voz não implica em ter vontades erradas. Eu vim pra confirmarem que, é, tomo as
decisões menos prováveis, as que o “grupo” não tomaria, mas que eu acho pessoas
que botam fé nelas comigo. Olhar de fora faz com que, ao invés de pensar que
errei, eu procure fazer com aquele rumo também faça sentido. E chegue até um
destino viável. Tenho cultivado a preferência por não reclamar, apesar de drama
ser comigo mesmo. Ignorar a aula que eu não tive e aproveitar a passagem gasta
até o Vale pra jogar uma sinuca com alguém da Toca. Ir até Guaíba para conhecer
o além Rio. Conhecer uns roles diferentes da Cidade Baixa e ir pra Zona Sul.
Continuo
não fazendo o mesmo percurso até em casa. Tenho várias esquinas para atravessar
a rua saindo da Faced, e a Garibaldi talvez não seja a melhor para isso. Nem
por isso eu a excluo. Porque os nomes das ruas tem um padrão bairrista que me
impressiona, e talvez sirvam para lembrar, cada vez mais, onde eu vim parar.
Sempre
procurei fazer comparações entre BH e Poa. São tantas que eu parei. De grande,
além das bikes no Vertente, a diferença é a falta do comodismo que eu tinha lá.
O errado é que estava tudo certo demais. Diz a lenda que eu aceitei o convite da lua e troquei minhas certezas por alguns sonhos mágicos. De certo
aqui, tenho algumas saudades e o “zelo” de quem o bom dia é muito mais que uma
expressão e sim um desejo.
Para
desconstruir alguns estereótipos, moro com vegetarianos e não se ouve muito
tchê por aqui não. “Rataria” é mais comum.
Isso que eu escrevo tomou um ar mais conclusivo do que introdutório, porém dois dos seis meses ou dos vinte anos que vou ficar aqui é só o começo do que a guria do pão de queijo ainda vai experimentar. A lua não para de me chamar.
Isso que eu escrevo tomou um ar mais conclusivo do que introdutório, porém dois dos seis meses ou dos vinte anos que vou ficar aqui é só o começo do que a guria do pão de queijo ainda vai experimentar. A lua não para de me chamar.